Terça-feira, 9 de Novembro de 2004

CRUZES DE SANTA LUZIA

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Nunca se sabe o que pode acontecer quando se passa em Picha. (que é nome de terra, para quem não sabe, pertinho de Pedrogão Grande e entalada entre as localidades de Senhor dos Aflitos e de Venda da Gaita). Mesmo quando, como agora, e sem que tenha crescido, Picha se pode orgulhar de ostentar um novo tapete de asfalto mas que convida mais a uma passagem veloz do que paragem e muito menos uma visita. Excepção provável quando se encontra em Festa para celebrar Nossa Senhora da Conceição, Picha está sempre triste e deprimida com gentes de poucas falas e olhares fugidios, talvez porque seja sítio que não encontra motivo e engenho para crescer até atingir estatuto de Vila e, sem haver maneira de crescer, não consegue escapar aos meios sorrisos de escárnio (vá-se lá saber porquê) dos passantes.

Passa-se por Picha para se chegar a Pampilhosa da Serra. E para se fruir a beleza da Barragem de Santa Luzia, agora inactiva para a produção de electricidade, restando-lhe o préstimo de abastecedor de água aos concelhos de Pampilhosa da Serra e de Pedrógão Grande.

Revisitei a Barragem numa viagem recente. Com tempo e disponibilidade para a percorrer a pé até ao cimo do parapeito na garganta do Unhais mas que terminou em apressado e temeroso regresso tantas são as fendas abertas no cimento e no granito da passadeira e que agoiravam trambolhão desamparado de quase cem metros sem vivalma que acudisse ou desse notícia à família e aos amigos.

Desta vez, resolvi confirmar a minha suposição de que uma enorme Cruz branca abençoando a Barragem se devia a piedosa lembrança e homenagem aos operários despenhados durante a sua construção.

Consultando para confirmação os meus sogros, especialistas que são em todos os mistérios da Serra do Açor, vim a saber que a construção da dita Cruz tinha motivos bem diferentes daqueles que supusera. E que aquela não era única mas tinha companhia de outras seis depositadas em lugares diferentes pelos penhascos fora e encimando pequenas ermidas e que (de certeza, por falta de visita da Fé) nunca lhe descortinei presença ou sombra.

Temos, pois, sete ermidas com enormes cruzes espalhadas pelos penhascos da Serra do Açor. A explicação para tanta ermida e tanta cruz, veio a seguir e faz-nos recuar até ao longínquo tempo da fuga de um antepassado (em funções governativas) do primeiro que nos governa - o célebre Santos Costa, maçon e anticlerical que se meteu na trapalhada de tentar separar Clero e Estado em terras lusitanas.

Em fuga apressada para o exílio, acossado pelo ímpeto vingativo do António adorador de botas e de sotainas, Santos Costa resolveu recorrer aos serviços de um moço de fretes, migrante da Serra do Açor, para lhe guardar a mala com os valores da sua riqueza (dinheiro farto e jóias diversas) e lha entregar, na hora de partida, no comboio com destino a França e em que embarcaria disfarçado de anónimo passageiro na Estação de Santa Apolónia. O moço de fretes acedeu ao contrato mas não resistiu a, durante a noite, mirar-lhe o recheio e deduzir que o dono, caído em desgraça, pouca capacidade teria para garantir posse de tão farta propriedade. Se o homem era herege e tinha ofendido como poucos a Santa Madre Igreja, andava acossado pelos novas e pias autoridades, como defender-se da perda da rica mala? Enquanto ele, maltrapilho e carente do necessário, viera das serranias para fugir à fome mas isso não colidira nunca com santas devoções e respeito por todas as autoridades desde que em pleno uso e usufruto do poder...

De repente, já a aurora raiava e se aproximava a hora da entrega da mala ao seu proprietário, quando o moço de fretes resolveu o paradoxo que lhe tirara o sono e decidiu que a mala, aos olhos do Senhor, bem melhor estaria em seu poder que servir de fundo de tesouraria para o barbichas herético andar a afrontar o regime a partir do exílio em França. Pensado e feito. Santos Costa abalou de mãos a abanar e o moço de fretes rapidamente ascendeu ao estatuto de rico comerciante da zona da Rua do Alecrim onde ainda continuará vivo e a gerir o seu império de ricaço súbito. Crente, sempre crente, mais crente ainda com a passagem a homem rico, o nababo de fresco e ex-moço de fretes, não aguentou o remorso por ter metido a mão em bens alheios. E, vai daí, resolveu que só lhe restava a salvação da confissão do medonho pecado.

O cura contratado para a missão redentora mostrou-se sábio na administração de pecados, virtudes e interesses da Igreja e não se perdeu em miudezas contraditórias que só enrolam os paradoxos. De facto, roubar era pecado e não pouco grave em tempo de salvaguarda dos teres. Mas, roubar um ímpio com bens sabe-se lá se surripiados a conventos e confrarias, era a mesma coisa que gamar um rico temente a Deus? Nem pensar. A sentença confessional veio lesta e decidida: o homem era totalmente absolvido e limpo de pecado na condição de abdicar de uma parte do espólio, construindo 7 (sete) ermidas que contribuam para a perenidade das santas crenças na pia Serra do Açor.

Homem de palavra (para interlocutores que a mereçam), o “novo rico” cumpriu penitência e as sete ermidas lá estão espalhadas comemorando, entre outras bem aventuranças, o alívio de o ímpio Santos Costa ter abalado teso e ácido para descanso de curas, frades, freiras e Cardeais deste santo país. E do futuro Papa, se este nobre e pio povo tamanha honra vier a merecer.
publicado por João Tunes às 19:10
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