Terça-feira, 9 de Novembro de 2004

MESTRE MANUEL CABANAS

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Todos os barreirenses o tratavam, com a maior das deferências, pelo merecido título de Mestre Cabanas.

Poisava no Café Tico Tico, bem no centro do Barreiro, entre o Mercado e o Parque. Sentava-se numa mesa de canto, silencioso, puxava do canivete adaptado à função e, num pedaço de madeira pré-preparado, esculpia, horas a fio, extraordinárias obras de arte (rostos e paisagens) que, depois, valiam por si e como suporte para se produzirem gravuras (recuperando uma arte do século XV). Nem eu, nem ninguém, se atrevia a incomodar o Mestre Cabanas enquanto ele trabalhava. E nem pensar alguém atrever-se a fixá-lo ou espreitar-lhe a obra enquanto o canivete estivesse a dar os seus geniais cortes. Quem quisesse cumprimentá-lo ou dar-lhe dois dedos de conversa, tinha sempre o cuidado de esperar que o Mestre tirasse os óculos e poisasse os apetrechos, dando o sinal de que estava em intervalo entre dois impulsos criativos.

Eu era um garoto armado em adolescente e o Mestre Cabanas já era um velho. Ele não era barreirense de gema, apenas adoptivo (como eu). Veio de Vila Real de Santo António e ficou-se pelo Barreiro onde a linha ferroviária acabava vinda do extremo do Algarve. Talvez, devido à comunhão das raízes, ele tenha dedicado a António Aleixo um extraordinário rosto esculpido em madeira e que se tornou a mais célebre imagem do poeta popular. Seco de carnes, vestia sempre de fato escuro, impecável e discreto no aspecto e calva ampla. Sempre com os óculos na ponta do nariz quando se concentrava na obra.

Mestre Cabanas era um antifascista compulsivo. Assinava tudo que era manifesto da oposição, participava em todas as eleições e presidia a todas as mesas das sessões da oposição que se conseguiram realizar no Barreiro. Volta e meia, a Pide levava-o para a António Maria Cardoso e depositava-o uns tempos no Aljube ou em Caxias. Quando faltava no Café Tico Tico, todo o mundo sabia onde o Mestre tinha ido parar. Depois, ele voltava, discreto e silencioso, para o seu trabalho de artista, sem alardes nem prosápias. Dizia-se que ele só pousava a madeira e o canivete para combater o fascismo. Devia ser, tanta era a sanha com que o fascismo o vigiava e o aprisionava.

Era republicano, laico e socialista democrático. Já muito velho, tornou-se numa figura emblemática do PS a seguir ao 25 de Abril. Mário Soares prestou-lhe culto enquanto pode. Conseguiu respirar a liberdade sem a poluição da Pide. Já nos deixou há uns anos.

Lembro Mestre Cabanas cada vez que reparo que moro numa rua que me enobrece por se chamar de António Aleixo.

A sua obra foi doada e está exposta, por disposição testamental do Mestre, em Museu em Vila Real de Santo António. Aconselho que passem por lá quando, no Algarve, se cansarem da praia, dos turistas e dos algarvios. Porque hoje, com a degradação que o turismo levou àquela terra, apreciar a obra de Mestre Cabanas é uma forma de nos reconciliarmos com os algarvios e aquela terra perdida. E ter-lhes estima.

Entretanto, aqui pode conhecer um pouco do artista e do cidadão.
publicado por João Tunes às 16:15
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