Terça-feira, 26 de Outubro de 2004

FALANDO EM DENTISTAS

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Engalinho com idas ao dentista. Não por falta de resistência à dor que a tenho em suficiente medida. Mas é o aparato. Sentar-me, abrir a boca e assim ficar desguarnecido e indefeso. Olhar a mesa repleta de objectos de tortura. Ter uma luz forte nos olhos como se me arrancassem uma confissão que nunca poderá sair porque a boca está bloqueada por um tubo que cospe ar e líquido e que borbulha na língua, deixando-a sem poiso. È sempre o mesmo: sento-me e apetece-me logo fugir.

Já paguei caro a minha resistência a ir ao dentista. Da última vez, fui lá com uma moínha e para atalhar umas primeiras dores. Antes que fosse tarde demais. Entrei, indiquei o dente dorido, esperando uma brocadela e uma chumbada, sai com dois dentes a menos. Paguei os atrasos com juros. Mais juros ainda vou ter de pagar.

E dizendo isto, também digo que nada tenho contra os dentistas. Pelo contrário. Tenho até um que me preza com a amizade, desde que, em tempos me assistiu no seu consultório de bairro. Enturmámos no mesmo gosto de conversa, ele passou a deixar-me sempre para último cliente, eu de boca aberta, ele com os vagares de fim de serviço, tudo feito sem pressas, terminada a função, ali ficávamos mais meia hora divagando por temas vários. Ele tinha vivido em Angola e no Brasil, por essas terras e gentes nos perdíamos em memórias cruzadas, dávamos uma volta pela política, depois acabávamos em facetas da condição humana, nos pequenos dramas e alegrias que fazem as vidas. Acabou por ir ocupando cada vez mais tempo das conversas pós-serviço, falando-me da sua maior mágoa e maior ternura – um filho deficiente mental e motor profundo. E, de cada vez, o final era sempre ver acender-lhe um brilho especial nos olhos e ele confidenciar-me o último avanço e novidade – uma reacção positiva a um estímulo, um soletrar, uma esperteza nova, uma traquinice que ele contava e pontuava com uma gargalhada de imensa felicidade e orgulho. Na altura, não conhecia o rapaz de vista, mas imaginava-o através do contar daquele pai babado.

A partir de certa altura, vim a conhecer o Luciano, o filho do meu dentista que andará, agora, pelos treze anos. E vou-o vendo com regularidade. A carrinha da escola de deficientes trá-lo para o consultório do pai e só daí, mais tarde, segue para casa. Confirmei a realidade das suas deficiências profundas mas em que a superação progride a olhos vistos. Há muito pouco tempo, só se movia com amparo, não conseguia controlar os movimentos, nada falava que se entendesse. A partir de uma certa altura, passou a ir ao café lanchar na companhia da recepcionista do consultório. Ela tratando-o com uma ternura disciplinadora para não lhe dar azo a refugiar-se e explorar a sua diminuição. Um dia, o Luciano recusou-se a completar o lanche e insistiu categórico, autoritário mesmo, na aquisição imediata de um chupa-chupa. A empregada negou. Ele refugiou-se numa expressão profunda de amuo e desgosto, recusando mover-se. Como protesto, meteu-se em greve de reacções e o olhar deixou de sequer adivinhar-se. A empregada cedeu e mandou vir o chupa. Num ápice, o olhar do Luciano rasgou-se num riso aberto de gostar o mundo escancarado. Um espectáculo de mudança do comportamento humano.

Ultimamente, o Luciano, está cada vez mais solto e mais guloso, já vai sozinho ao café, sempre a rir-se, deixa cair as moedas no balcão, profere a palavra “chupa” e aponta com o dedo a sua preferência. A gulodice funciona-lhe como estímulo para vencer barreiras.

Vai lá, o Luciano. Mais depressa que eu entrar no consultório paterno e abrir a boca à tortura.
publicado por João Tunes às 00:38
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