Domingo, 24 de Outubro de 2004

A VISITA A CUNHAL

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Segundo leio no Expresso, uma delegação da fracção dirigente do PCP foi (ou vai) visitar Cunhal para ouvir a sua opinião sobre o processo de sucessão na Secretaria Geral. Tudo o que segue, é escrito no pressuposto de que houve boa informação no tratamento da notícia. E que descansem eventuais pressurosos em adivinhar profanação do respeito devido aos idosos, porque não há risco de repetição de tecla.

Nada a apontar no acto de consulta ou conselho. Apesar da idade avançada do conselheiro e este estar a padecer de muita doença (que, inclusive, o impediu de exercer o direito de voto nas últimas eleições, o que, não fosse o caso de a sua saúde estar fortemente abalada, de certeza não aconteceria). Admito que Cunhal ainda tenha capacidades e informações para dar a sua opinião. E que, assim, ela deva ser recolhida.

Mas, conhecidos que são os rituais da escola e da prática da facção dirigente (alimentada e instalada pelo próprio Cunhal), não é escandaloso supor que a visita a Cunhal seja um expediente de legitimação e utilização apologética da solução que já terá sido cozinhada no seio da fracção bolchevique. Ou seja, obter-lhe uma ratificação, nada difícil nas condições de isolamento em que é forçado a viver, para a usar como elemento de influência para dentro do partido. Porque, enquanto Cunhal estiver vivo, por muito debilitado que esteja, o trunfo esta é a opinião do camarada Álvaro pesará sempre num partido em que o subtil (mas super-eficaz) culto da personalidade está entranhado até à medula. E, nesta fase, uma opinião apresentada como vinda daquele antigo dirigente, tem ainda a carga suplementar de ser um testamento político que, culturalmente, tem um enorme peso indutor de respeito. A ser assim, a propalada decisão do colectivo valeria pó perante o peso de uma visita, fazendo lembrar o que ocorreu no período soviético entre 1922 e 1924, com Lenine doente e muito diminuído, em que se sucediam as visitas a este dirigente para que uma ou outra fracção tentasse ganhar pontos no processo sucessório.

Pode parecer um cenário demasiado maquiavélico. Mas não seria a primeira vez que tais processos são utilizados na casa. E toda a técnica do centralismo democrático permite a apetência e a eficácia destes recursos. O centro tem sempre um catálogo de sofismas para boa escolha. E uma atracção irresistível por copiar processos, métodos e rituais da história das práticas de referência.
publicado por João Tunes às 00:44
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2 comentários:
De Joo a 30 de Outubro de 2004 às 17:50
Não percebi nada. Mas tudo bem. Não comento.


De joo a 30 de Outubro de 2004 às 16:34
Gostavas de ter um comentário a esta palestra, mas não vais ter, pelo simples facto de que, quando se fazem afirmações, deve sempre "justificar-se" as mesmas. Como o senhor o não faz, também não comento... é só para saber que li e que considero que devia estudar mais um pouco sobre certos assuntos.


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