Sábado, 23 de Outubro de 2004

SOBRE UMA QUEDA

r3012778477[1].jpg

Um dos nossos grandes educadores, verberou asperamente os que se riram da queda de Fidel (“um velho a cair, como acontece aos velhos”, segundo JPP). Como se esperava, teve imediatos seguidores, alguns mais papistas que o papa, como é costume. E vai daí, ao labéu da “estupidez” lançado por JPP, não faltaram os sublinhados do “mau gosto” e da “piada tosca”. Por exemplo, foi o que encontrei aqui.

Ora, no meu entender, JPP e seguidores, manipulam um sofisma com a manha da demagogia moralista. É que eu e outros não nos rimos da queda de Fidel por ele ser velho, mas sim por ser um ditador. No que respeita à velhice de Fidel, e pela parte que me respeita, lamento só que Fidel, sendo ditador, também seja velho, na suficiente medida em que se é péssimo que ele tenha poder absoluto sobre um povo, indigna que o seja há 45 anos (quarenta e cinco anos!). E são estes quarenta e cinco anos de ditadura que fizeram com que o facto tivesse sido a queda de um ditador velho e não se tivesse tratado da queda de um ditador novo. Politicamente, o que é relevante na “velhice” de Fidel é isto, são estes quarenta e cinco anos com demasiado sangue e tortura à mistura. Pelo que, se me ri da queda de Fidel (pelo simbólico que tem um ditador, qualquer ditador, com o seu absolutismo estendido no chão), muito mais me riria, festejaria até, se esse “acto falhado” tivesse acontecido quando o ditador era “novo”. Porque seria um símbolo, ou sinal de esperança, de que os cubanos podiam começar a respirar mais cedo. Porque, queira-se ou não, a queda de Fidel (em acto público) vai ter impacto de fragilização da ditadura, na medida em que os símbolos e sinais têm uma energia própria. E isso, que me desculpem, acho que foi bom para os cubanos, porque prefiro o direito dos cubanos à democracia que a compostura da dignidade de todo poderoso por parte de Fidel Castro.

Não me riria de certeza, pelo contrário ficaria bem pesaroso, se Mário Soares, Emídio Guerreiro ou Fernando Vale (o primeiro com idade próxima da de Fidel, os dois últimos, estimadíssimos casos de longevidade), tivessem uma queda a sair de um palanque ou dos degraus da porta de casa. São velhos estimados, democratas, pessoas de uma vida cheia de prática de luta convicta e tolerante, são homem do bem comum. São “nossos” velhos. Olhamos para eles como olhamos para um avô de quem gostamos muito. Merecem a ternura de os desejarmos compostos, de saúde e alegres de continuarem sábios, activos, escutados e respeitados entre nós.

Voltando à vaca fria, e ao contrário do que disse JPP, Fidel não caiu por ser “um velho”. Só teve aquela queda por ser o ditador de Cuba. E podia tê-la mesmo sendo “novo” (os novos também tropeçam…). A queda deu-se no contexto de uma celebração do regime, os degraus que lhe escaparam eram degraus do púlpito do poder absoluto de comandante-chefe imposto ao seu povo. Logo, o sofisma como truque apelativo a sentimentos de respeito pelos idosos, não será de “mau gosto” (é pouco), mas um mero artifício oratório de galões de superioridade moral.

Demagogia com demagogia se paga. Então vá. Há mais velhos em Cuba. Há velhos sem liberdade. Há velhos nas prisões. Há velhos torturados. Há novos que vão ser velhos dentro das prisões cubanas por delito de opinião. Há velhos marginalizados ou presos por escreverem aquilo que Fidel não permite que se escreva. Por esses velhos, mais os novos que correm o risco de envelhecerem (os que não forem assassinados) privados da liberdade, por esses velhos, repito, aqui me tenho batido e por eles tenho clamado. Aguardo acto de coerência e de inteligência, da parte dos “defensores dos velhos” que são, pelos vistos, JPP e os seus discípulos. Fico à espera.

(na foto da AP, Fidel, composto e com toda a dignidade e aclamação ditatorial, pistola à cintura, antes de cair)
(serve como contrição e reposição do devido respeito para com o Comandante?)


Adenda 1:
Quase diria que este post valeu a pena só por ter estarrecido algo a estimada lolita que se amofinou com a minha reacção à reacção de JPP, dela e de outros.
Obviamente que a história de “seguidores” e de “discípulos” está a mais na minha escrevinhadela. Era escusado. Foi a irritação a ferver. Aqui, sim, retrato-me já. Já está.
A lolita não quer discutir o que me parece a essência da questão- a ditadura cubana. Está no seu direito. Para mim, sem passar por aqui, o assunto deixa de ter qualquer interesse. Independentemente da apreciação feita sobre o regime de Fidel Castro.
A lolita, ladina na condução do fio da conversa, tenta levar o sério e a essência para o respeito e para as circunstâncias. Mas não vou nessa. Para esse peditório já dei no corpo do post.
Claro que folgo que a lolita mantenha intacta a sua opinião. Confirma que só concorda com quem quer e lhe apetece. E não o lamente, porque isso, só por si, diminui um bocadinho a segurança da opinião. A menos que o lamento seja uma peça de ironia para cortar cerce pretensas veleidades minhas a alguma ambição de espalhar concordâncias. Se for o caso, deixe-se disso, pelo que julgo conhecer de si, seria demasiado tosca a minha capacidade de apreciação para a ousadia de pretender virar-lhe as ideias e as opiniões. E os nossos ocasionais bate-papos perdiam a graça toda. Assim, Saludo e até à próxima.

Adenda 2:
A lolita voltou ao tema. Está visto que não nos entendemos sobre a ordem de trabalhos do que cada um entende que há para discutir. Estamos de agulhas às avessas. Insistir seria resvalar para a teimosia. Mais temas surgirão ou melhor oportunidade para voltar a este que agora bloqueou. O prazer do papo, esse ninguém mo tira. Já cá canta. Adelante compañera.
(desconfio que o besugo e companheiros, a esta hora, já devem estar enciumados por lhes estar a roubar o privilégio de polemizarem com a sua blogoparceira)
publicado por João Tunes às 15:57
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Aoriano a 24 de Outubro de 2004 às 11:22
Como diz um velho adágio popular "COISA RUIM NÃO TEM PERIGO", mas verdade, verdadinha, este DITADOR Fidel Castro, não merece viver!


De visitante habitual a 23 de Outubro de 2004 às 20:40
Caíu um homem? Sim. Caíu um homem, velho? Sim. Caíu um homem, velho, velho ditador também? Sim. Caíu um homem, velho, velho ditador também, em mais um ritual da velha ditadura? Sim. E não morreu? Não. Que pena!


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. COMPLEXOS DE ESQUERDA

. ONDE MEXE MEXIA?

. AGORA

. ...

. SIM, ZAPATERO

. AO MANEL

. DESGOSTO ANTECIPADO

. CHISSANO ARMADO EM SPARTA...

. DOMINGO ANTECIPADO

.arquivos

. Setembro 2007

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds