Terça-feira, 19 de Outubro de 2004

O JOVEM CHE EM CINEMA

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Guevara, como produto, é dinheiro em caixa. Seja como t-shirt ou de outra forma qualquer – como livro, como filme, como canção, como logo, como grito, como saudade romântica, como ilusão ou como vontade de dar um piparote nesta desordem que nos atormenta. Público não lhe falta. E com o nevoeiro do tempo a passar, talvez cada vez tenha mais clientes. Se tamanho cometimento for possível. Mas é. É.

De Guevara, já se vendeu quase tudo e tanto. Se não fosse inesgotável, e é, ele já teria secado no discreto mas sugestivo monumento que tem em Havana e que abriga o habitual milhão dos convocados para as missas de Fidel ou como apoio campal das mulheres dos presos políticos cubanos que pedem os maridos de volta à liberdade. Mas, como o bazar das utopias não fechou, nem sequer para obras, de Guevara muito mais se vai vender. E tanto. Porque de Guevara, por muito que se venda, nunca se venderá tudo.

Não querendo passar por saloio sectário, lá fui ver o filme “Diários de Che Guevara” (The Motorcycle Diaries), realizado por Walter Salles. O projecto do produto foi passar ao cinema uma versão das aventuras juvenis de Guevara, que ele registou num diário de viagem, em que atravessou a América Latina na companhia de um amigo e em que descobriu a realidade da profundidade da vida dos povos sul-americanos. Todas as metáforas do futuro de Guevara estão ali mais os germes da supremacia da vontade sobre a objectividade e que, mais tarde, formariam escola de praxis política.

Pois, a verdade é que entendi melhor Guevara. Nomeadamente quanto à patologia de reproduzir microcosmos adaptados a um querer, a componente redentora e sinistra que acompanha a vontade de redimir distâncias da condição do ser pela sapatada da aventura e da bala, a representação da redenção da origem de classe pelo martírio da doação sem limites. Faltou-lhe, inevitavelmente, para a realidade do Guevara adulto, aquilo que Guevara não teve quando jovem e que depois usou sem piedade – a frieza do exercício do poder e do ajuste de contas. Mas dá para entender a sua vontade, por necessidade, de largar a nomenklatura de Havana, entregando-a nas mãos de Fidel, para poder regredir através das apostas juvenis dos focos guerrilheiros, com que se quis suicidar. Entendendo que Guevara nunca passou disso mesmo – um jovem suicida que não quis morrer em solidão. E tantos são os companheiros (de velório) que ele tem e reproduz mundo fora. Sobretudo, porque Guevara é dinheiro em caixa.
publicado por João Tunes às 23:49
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