Domingo, 17 de Outubro de 2004

LOLITA, A TREPADORA ?

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Suponho eu que a esta hora, se não foi incorporada no batalhão guerreiro que vem tomar a capital, a lolita esteja em intensos e terminais treinos de escalada para logo, em comemoração de grande e tamanho feito, trepar agilmente o obelisco da Rotunda da Boavista, para subjugar a ave atrevida que lhe serve de adorno como símbolo, ali deslocado, de glória e de poder.

(Nos meus tempos juvenis em que o eixo da minha ocupação se passava entre o Pinheiro Manso e a Praça da Galiza, a Rotunda da Boavista funcionava como centro do meu lazer e da minha descontracção. Tanto que, para mim, a cidade era quase só aquela Rotunda. Sempre achei a estatuária desproporcionada em tamanho e magreza colunal face ao meio urbano que dominava. E os motivos cimeiros sempre me pareceram demasiado altos para serem digeridos e integrados, diluindo-se o simbolismo comemorativo pretendido devido ao inevitável alheamento dos passantes. Assim, eu cirandava pela praça e nunca me prenderam os detalhes do grande enfeite central. Larguei a Rotunda sem saber o que nela se comemorava e que pessoas, mitos e bichos eram explorados como símbolos. Sei agora, pela lolita que por lá voa uma águia. E que isso constitui motivo de embirração para tripeiros. Fica-me a vontade de lá voltar. E em homenagem à águia detestada, lá lhe deixarei um ramo de rosas (vermelhas!) na base para a compensar dos muitos ódios rasantes dos passantes seus inimigos. Assim, cara lolita, o mais provável é que o próximo cidadão que vir pela Rotunda com um ramo de rosas na mão, seja este modesto cidadão e seu leitor atento.)

O post da lolita (Blind date), tirando o parêntesis anti-estatuário, é magnífico. Como costume. Pleno de poder de olhar, num breve relance, olhares e estares de outros. Tentando captar o absurdo do imprevisto humano dos desencontros na impressiva imagem de um atraso e que plantou um homem com flores na mão, numa ansiedade de espera. Como é que tanta sensibilidade de captar pode comportar uma limalha díscola? Talvez para compensação, em equilíbrio humanizante de mulher que se tem de desenrascar na cidade, evitando que a lolita largasse o carro de qualquer maneira e se detivesse comovida na dimensão do querer humano. Assim sendo, evitando expor-se, a raiva anti-estátua até se compreende. Uma águia, mesmo em estado mineral, incomoda - se incomoda - mas também serve, como se viu, às mil maravilhas para evitar um disparate de uma citadina às voltas com o deslindar da contradição entre a sensibilidade e o rumo. E o trânsito fluiu normalmente na Rotunda da Boavista. Uma águia útil aquela, está visto. Assim, a merecer mais estima que ímpetos de a subjugar, digo eu em plena posse do racional. Mas a paixão é insondável, não é?

Adenda: A lolita, nada dada a minúcias, não reparou na hora em que coloquei este post e que foi antes do evento, sem lhe conhecer o enlace e o desenlace. Quanto ao resto, ela tem toda a razão. Quem hoje não subjuga uma águia? Se até um olegário o consegue…
publicado por João Tunes às 14:56
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1 comentário:
De mfc a 17 de Outubro de 2004 às 17:27
A paixão só pode ser irracional, por isso vamos ganhar hoje e deixarmos os do símbolo mítológico a 7 pontos.
Se não deixarmos... paciência!


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