Quinta-feira, 14 de Outubro de 2004

YAKOVLEV

yakovlev.JPG

O livro que tenho entre mãos (*), apesar da consolidação dos desenganos, é um livro profundamente doloroso e impróprio para digestão e, por isso, não o recomendo a quem quer que seja. Porque, das duas uma, ou o afasta por ser demasiado, ou então, porque é duro demais na capacidade de percepção de que aquilo foi assim.

Se aqui falo nele, é simplesmente pela vontade de espalhar algum do meu desconforto ao ler este livro. Desabafando mágoas e indignações perante crimes que, ainda hoje, não é politicamente correcto assumir em toda a sua extensão. Não pretendo ser maldoso, simplesmente acho que posso usar este blogue para desabafar de dores que me pesam no peito. Um blogue não é um caderno pessoal? Mas também falo deste livro por um dever que sinto para com Yakovlev que, pela dureza frontal das suas revelações, não merece ficar a falar para o boneco.

Yakovlev é bem conhecido pelos duros do PCP. Se falarem com um deles, um dos que têm acesso à essência da coisa, e lhe falarem em Yakovlev, ele explicará que o sujeito foi a alma negra da derrota do socialismo real, o homem que perverteu Gorbatchov, o autor moral e ideológico da destruição da URSS (arquitectando essas perdições que foram a glanost e a perestroika), talvez diga que sabe de fonte segura mas secretíssima que Yakovlev foi recrutado pela CIA quando era embaixador da URSS no Canadá.

No meio das calúnias lançadas sobre Yakovlev, verdade é que ele foi o grande inspirador das mudanças na URSS e o homem que mais influenciou Gorbatchov, embora tenham surgido conflitos entre os dois. Porque Gorbatchov teve dificuldades em aguentar o combate da guarda estalinista encarniçada contra Yakovlev (sabendo que ele era o cérebro da renovação) e porque este último se mostrou, a partir de certa altura, crítico das hesitações, derivas e tendências para o compromisso por parte de Gorbatchov e que conduziram à sua queda sem glória (pelo menos interna).

Diga-se o que disser de Yakovlev, a verdade é que ele foi o primeiro e único grande dissidente que nunca fugiu do sistema que combateu, manteve-se no cume da pirâmide do poder soviético e hoje continua, no seu país, a ocupar-se da direcção da Comissão de Reabilitação das Vítimas Políticas sob a ditadura comunista que está na dependência da Presidência da República Russa e, que nessa qualidade, tem acesso privilegiado à documentação secreta do PCUS e do Estado Soviético. Ou seja, Yakovlev é o Grande Dissidente não exilado e não clandestino e, em simultâneo, o homem que mais sabe da essência sobre como se processava o mando do poder soviético desde a fase leninista até ao seu estertor.

A biografia de Yakovlev é reveladora: ingressou no PCUS em 1943 (fez a 2ª Guerra Mundial, foi ferido em combate e, por causa disso, arrasta desde então uma deficiência física); pertenceu ao Comité Central do PCUS – ligado aos pelouros da ideologia e da propaganda - entre 1953 e 1973; afastado por causa das suas posições heterodoxas, foi embaixador na URSS no Canadá, entre 1973 e 1983; nomeado para dirigir o Instituto de Economia e Relacções Internacionais do PCUS em 1983; em 1985, já com Gorbatchov, retomou a liderança da propaganda do PCUS; em 1986 foi promovido a Secretário do CC e, em 1987, passou a integrar a Comissão Política do PCUS. Uma típica e promissora carreira de aparatchik. No caso, um aparatchik com consciência dissidente desde o XX Congresso do PCUS e a revelação dos crimes estalinistas por Krustchov.

Para além de revelar, na sua máxima extensão e profundidade, a natureza dos crimes soviéticos, Yakovlev não é bem visto em alguma dissidência moderada que procura salvar da essência pura da coisa (o marxismo-leninismo), quer Marx quer Lenine, reduzindo os males à degradação da fase estalinista. Yakovlev, pelo contrário, defende que a natureza dos crimes está na essência ideológica da concepção marxista-leninista, responsabilizando por isso quer a utopia marxista mas sobretudo a teoria e a prática leninista de exercício do poder. Ou seja, para ele, o sistema ideológico e de concepção social que vigorou na utopia e na prática comunista é criminoso em si mesmo, pelo papel dado à violência como forma de resolver conflitos, integrando no mesmo processo a prática leninista (criminosa em primeira instância) e a paranóia estalinista (criminosa em segunda estância) e a que se podem juntar as derivas regionais de criminalidade política (Mao, Pol Pot, Fidel Castro, etc). E o resultado, falando de números, são dezenas de milhões de assassinados. Não em desastres ou enganos, apenas através de ordens friamente pensadas, decididas e executadas. E as vítimas incluem um número infindo de comunistas fiéis que foram vítimas da roda opressora que ajudaram a lubrificar (não se pode esquecer que Estaline matou, por sua conta, mais comunistas que aqueles que foram assassinados por Hitler).

Apoiado em suporte documental trazido dos arquivos, antes secreta e religiosamente guardados, Yakovlev revela a frieza assassina com que o poder soviético foi exercido. E isso dói tanto, pelo espanto horrorizado da revelação, como quando nos perguntamos como foi possível a barbárie nazi e o holocausto. Sobretudo, por isto, o livro não é recomendável a almas sensíveis e sobretudo aos que, ainda hoje, resistem a saber ou não querem pensar no desconforto do que farão depois de saberem.

(*) “Um Século de Violência na Rússia Soviética” – Alexander N. Yakovlev, Editora Ulisseia
publicado por João Tunes às 17:36
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