Quinta-feira, 14 de Outubro de 2004

A HIPÓTESE CARVALHO DA SILVA

carv silva.bmp

As atitudes públicas e organizadas de militantes do PCP na defesa da entrega da liderança a Carvalho da Silva, terão representado o esboroar da fraca probabilidade de isso vir a acontecer. Essencialmente, porque permitem que as objecções do aparelho passem a ser apresentadas como a resistência a uma pressão descaraterizadora. Para mais quando se sabe que alguns dos promotores (autarcas no Alentejo) do tal abaixo-assinado tiveram participação em iniciativas da última vaga pró-renovação. Depois, porque uma disputa dura e de rotura pela liderança não será apetecível pelo próprio Carvalho da Silva. Porque o mais provável é que ele opte pela via mais confortável de terminar em paz o seu doutoramento universitário enquanto faz a gestão das batalhas sociais travadas pela CGTP.

E Carvalho da Silva, seria, provavelmente e no naipe estreito das possibilidades, a maior e última probabilidade de o PCP se reafirmar na sociedade portuguesa e estancar o seu ciclo de declínio. Possibilitando ladear a liturgia do simbólico original da marca bolchevique, e perfilar o PCP nas áreas onde tem trunfos, mérito, experiência e tradição: na actividade sindical e no trabalho autárquico. Num caso e noutro, marcando pontos em zonas de actividade onde o resto da esquerda falha (e mais falhará, com o deslocamento socrático para os braços do centrão), aproveitando o défice de combatividade sindical e da cobertura aos caudilhos autárquicos que são pecados originais nunca resolvidos pelo PS, enquanto podia tirar brilho ao radicalismo folclórico dos bloquistas.

Pelas suas características, Carvalho da Silva não tem nada que o perfile nas preferências da fracção dos companheiros de Cunhal que dominam o PCP. E ali, os seus talentos são handicap, sendo apenas temido pela projecção pública associada a uma personalidade relevante na sociedade portuguesa. Começando porque a sua liderança prolongada à frente da CGTP representou e representa uma apropriação de liderança, dado que ele foi apenas aceite como líder transitório (numa fase crítica em que houve que despachar rapidamente o antigo dirigente, caído em desgraça por razões que nunca foram explicadas) até que um líder moldado pela fracção dirigente do PCP estivesse em condições de emergir. Vindo do obscuro departamento de organização, sindicalista bracarense apagado com origem na militância católica, Carvalho da Silva foi para dirigente por curtíssimo prazo. Pelas suas capacidades e inteligência táctica, Carvalho da Silva agarrou o lugar e consolidou-o e assim tem permanecido para engulho da tendência controleirista do aparelho partidário. Aparelho este que só conseguiu vingar-se da ambição de Carvalho da Silva ao humilhá-lo, impondo-lhe, como controleiro (e assim, suplantando-o, por via nomenklatura, no controlo político-partidário da CGTP), o Fadista da Abril - Jerónimo de Sousa, trepador com uma carreira feita a discursar em reuniões de Comissões de Trabalhadores de Lisboa e no Parlamento, até chegar à Comissão Política. Mas também porque Carvalho da Silva é homem de abrangências e de consensos, licenciou-se, é homem inteligente, com vontade, capacidade de trabalho e para pensar pela sua própria cabeça (pecando, sobretudo, por ser um irremediavelmente péssimo orador).

Gorada (julgo eu e só por isso me arrisco a prejudicá-lo com este post) a hipótese Carvalho da Silva, o que resta? Pois, um homem ou uma mulher de palha. Alguém que passe uma imagem aceitável e disfarçante (Ilda Figueiredo ou Honório Novo serão os mais capazes e eficazes no papel de Carvalhas II), mas que não belisque, nem disso tenha tentação, o poder efectivo da guarda pretoriana da herança de Cunhal - os mais velhos ainda com restos de energia bolchevique (Carlos Costa e Domingos Abrantes) e os mais “novos” (Casanova, Albano Nunes, Vítor Dias).
publicado por João Tunes às 12:54
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1 comentário:
De Fernando a 15 de Outubro de 2004 às 19:04
Caro João,

Li atentamente o seu texto, onde opina sobre a vida interna do PCP, da demissão de Carlos Carvalhas e da hipótese de Carvalho da Silva ser o próximo Secretário Geral do Partido.

Em primeiro lugar, quero manifestar-lhe o meu apreço pela sua opinião critica, feita com elegância, não resvalando, como tenho lido noutros locais, pelo caminho da ofensa caluniosa.

Sou um militante político desde os dezasseis anos. Conheci as masmorras da Pide, 15 dias antes de completar os vinte. Após o 25 de Abril, para além de muitas outras actividades que desenvolvi na defesa dos valores democráticos, fui um militante sindical bastante activo, como delegado sindical de uma conhecida Empresa.

Nunca ninguém me calou. Nem os defensores de projectos atentatórios à Liberdade (re)conquistada, nem os meus companheiros de percurso. Nunca procurei, nem aceitei cargos de destaque.

Há alguns anos, primeiro por motivos de mudança de actividade profissional e depois por problemas de saúde, que não tenho possibilidades de participar na política activa. Mas faço-o de outra maneira, como por exemplo, através dos meus escritos.

Pretendo, com o que atrás escrevi, dizer-lhe que, embora afastado da vida política activa, nunca me demiti de expressar as minhas opiniões, em círculos restritos ou públicos.

Entendo que o PCP, bem como outros Partidos que se reclamam de Esquerda, não devem manter-se fechados sobre si mesmos. Sem traírem os seus princípios ideológicos, as diversas formações de Esquerda, devem ter sempre presente o percurso da Humanidade e fazerem os ajustamentos necessários ao Tempo presente.

É no mínimo desolador, o triste espectáculo exibido por diversas figuras que se reclamam de Esquerda, provocando nas lusas gentes um grande desencanto em relação à classe política em geral e à Esquerda em particular, atirando-a para os braços de soluções messiânicas, como tem acontecido através da História, com exemplos bem recentes na nossa memória.

É tempo de quem, em consciência, se reclama dos ideais de Esquerda, por de parte o acessório e preocupar-se com o essencial, que neste momento é, como tem sido através dos tempos, travar os castradores de consciências, que espreitam sempre a oportunidade para deitarem as suas garras de fora.

Carlos Carvalhos, foi, é, e será sempre um homem vertical, sério e incapaz de cravar uma punhalada nas costas de alguém. É o Carvalhas que conheço, de antes do 25 de Abril e que manteve sempre uma postura sóbria e um caminho recto. Fiel da balança durante os anos que desempenhou o cargo de Secretário Geral do seu Partido, sairá dessa tarefa pela porta principal, com uma grande dignidade.

Sobre o futuro do PCP, Partido essencial para o funcionamento das instituições democráticas, com um passado respeitável de luta contra o nazi / fascismo, espero que encontre o seu caminho, avançando para o Futuro, sem renegar o seu passado.

Queira, meu prezado Amigo, desculpar-me, por tão longo comentário. Muito mais tinha para dizer, mas, por favor, dê-me o prazer da leitura dos meus textos no Fraternidade, que, sem a pretensão de afirmação de verdades absolutas, que as não há, encontrará muita matéria de reflexão.

Fraternas Saudações,

Fernando Bizarro


Nota: Tal como fiz com o "Bota Acima", o "Água Lisa" também já consta dos meus Blogs Fraternos.





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