Quarta-feira, 13 de Outubro de 2004

SINDROMA CANINO

canino_seq4.jpg

Disse e repito que tenho estima consolidada pelo meu cachorro. Tanto que quase humanizo a estima que ele me tem e que retribuo como sei e o melhor que posso. E uma vez por outra, até chego a elevá-lo aos píncaros do racional, metendo-o dentro da minha galeria de amigos (que me desculpem esses, sabendo eu que desculpado estou sempre pelo currículo que cada um apresenta na modalidade das pachorras temperadas para com os meus exageros emocionais).

Serei sensato. Amigo não será o cachorro, mas só porque não pode, condenado que está a arrastar défice de alma. Mas companheiro é. E dos bons. Melhor dizendo, dos melhores.

Vezes ocorrem em que o testo nos limites da capacidade do seu ser. Tento quebrar-lhe rotinas, criando-lhe imprevistos e incertezas, desafiando-o para voos de soluções imaginativas. Ele topa-me. Põe-se de sobreaviso, previne-se e responde o melhor que sabe. Arregala os olhos, mostra os dentes, abana o rabo. Defende-se, procurando sempre que, por cada desafio, uma vantagem lhe calhe em sorte ou como prémio. Mas Pavlov sabia do seu mister, o bicho sofre de reflexos condicionados e daí não passa, amouchando sempre na procura da compensação da sobrevivência e do bom trato. Não consegue passar da dependência do humano, a isso se atem e acaba sempre por lamber a mão, esperando guloseima como a melhor das condecorações. Segue-me e espera ordens e humores. Porque lhe falta a liberdade de me mandar à fava e impor-se. Ou sequer, inverter o jogo, testando-me ele a mim. No fim, lambe-me sempre a mão porque sempre me conheceu como dono. E não lhe passa pela cabeça que pode mudar de dono. Nunca se aventura na procura de melhor dono e por isso me aceitará sempre como o dono que lhe calhou em destino.

Cão é cão. É assim. Que o tratem bem, permitindo e ajudando-o a que viva, é o seu horizonte. A felicidade possível, a canina.

Pois se cão é cão, o estranho é que há homens que descem facilmente, alguns toda uma vida, ao estado de cão. Pessoas que encurtaram horizontes para viverem na obediência e no jogo de reflexos perante os humores e quereres do encarregado, do chefe, do patrão, do governante, da mulher ou do marido, do pai ou do filho, do partido, da ideia feita, do costume adquirido ou da oportunidade da ocasião. Aceito. Tenho de aceitar. Mas prefiro ter em trela um cão que um homem-cão. Porque nunca lhe conseguiria fazer uma festa. Porque me regalo com o privilégio humano de fazer festas para cão ao meu cão. E isso é prazer que não partilho com qualquer homem que gostasse de ser cão. Porque é a margem exclusiva de quase humano a que o bicho tem direito.
publicado por João Tunes às 22:59
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