Quarta-feira, 13 de Outubro de 2004

UM AMIGO COM TARA POR RAINHAS

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Há homens para tudo. No que respeita aos seus fracos de preferências pelas mulheres, então nem se fala. Há homens de uma mulher só. Outros que só com muitas se sentem bem. Aqueles para quem chega contá-las pelos dedos de uma mão para dizerem que basta, mas que nem foram demais ou de menos. E mais aqueles outros que as querem coleccionar como se elas fossem cromos da bola. E até há, os tão pobres de riqueza de vida, que não as querem por perto, uma que seja para amostra. Para não falar dos que gostavam de, em vez de serem homens, terem nascido mulheres, vivendo nesse suspiro até que um artista cirurgião a vontade lhes faça.

Depois, se formos para preferências, haja deus que os gostos variam, para todos se contentarem e não andar tudo ao mesmo. Os que gostam de gordas, das magras, das mais novas, ou das mais velhas, das bonitas e até das feias. E também os mais humildes que, para eles, qualquer coisa serve. E assim vai a harmonia nos mundos só quebrada quando mais que um embica para o mesmo lado e a apetecida hesita na escolha, ou até a baralha ou, perfidamente, mete a fartura de procura a render juros e guerrilhas.

Há os que matam e os que se matam por causa de uma mulher. E os que suspiram pela mulher ideal como se as fantasias, realizando-se, não perdessem, logo ali e de morte matada, a graça toda. Também há os resignados e oprimidos, que não passando sem mulher, se deixam tiranizar por essa dependência e assim se demonstrando que o feminino também pode ser uma droga. Passando pelos que se julgam tão feios que cultivam, como numa estufa, aquela que lhe calhou em sorte sem se atreverem a contrariar a fatalidade que julgam ser obra do destino. E depois há a história dos fetiches, pois há, e são os que menos faltam. Etc e tal.

Pois sabendo tudo isto, pensava eu estar preparado para conhecer e aceitar todas as rifas da quermesse dos gostos, maus gostos e desgostos dos parceiros felizes, os nem tanto como isso e os até pelo contrário. Mas as surpresas só acabam quando acabar o mundo. É. Estava a manhã amanhecendo quando me deu para ler o Puxa Palavra e eis senão quando encontrei um naco da habitual boa e bem humorada prosa subscrita pelo meu amigo Raimundo que não para de surpreender. Então não é que o Raimundo, homem que julgava sóbrio e comedido, com gostos de decência certificada, sujeito de nunca tanto ao mar nem tanto a terra, revela que tem a tara das Rainhas. Não só vai à bola com elas como gosta de entender o fio da História através das grandezas que reinaram e reinam no feminino. Pior, substituiu a audição respeitosa da homília de Santana pelo deleite com o desfilar das vetustas rainhas egípcias num desses canais de pendor científico-histórico. E tanto se extasiou que não falhou o climax na exaltação de Cleópatra, atribuindo-lhe méritos onde os próprios egípcios encontram desdita. Eu que ainda tenho fresca a indignação que eles me atiraram à cara de ocidental (para vocês, Cleópatra foi uma espécie de Julieta, mas para nós foi a rainha que nos perdeu a independência), lavrei protesto de indignação. Porque o devaneio apologético do Raimundo ultrapassou todos os limites, para mais quando, na sua precisa coincidência, Sexa falava à Nação. Porque todas as taras, mesmo uma tara por rainhas, tem os seus limites. Ou não?

É que o maior risco do panegírico que o Puxa Palavra lançou ao mundo pode ter, além do mais, efeitos catastróficos num país em que tudo se está a compor e a prosperar. Imaginem que um assessor de Santana lhe leva o print do post do Raimundo e o homem fica logo ali embeiçado com uma rainha bem jeitosinha e a necessitar de compensações de desgostos e, tal como fez com Machado de Assis, se lembra de mandar bilhete ao ministro dos estrangeiros a dizer: deixa-te da trapalhada da Guiné, diz ao Portas para fragatar para longe o César e o Marco António, e convida já, para visita de estado, essa Cleópatra que dizem ser boa como o milho, preparando-se desde já aposentos condignos e discretos?

Amigo Raimundo, um pouco mais de sentido de estado, não te ficava mal, pois não?
publicado por João Tunes às 14:51
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1 comentário:
De RN3 a 14 de Outubro de 2004 às 01:32
Nada pior que a palavra para dar a conhecer o que nos ocupa o pensamento. Pois onde eu só exaltava o espírito, a excelsa governação, as estratégias, a alta política, tu, meu caro Tunes, viste afinal carne e pecado.
Aqui ao lado asseveram-me que sem pecado, o da carne, a vida não passaria de uma grande maçada. Pois. Talvez.
Um abraço


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