Sábado, 9 de Outubro de 2004

DA LIBERDADE SÓ SOBRA O SOFÁ?

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O besugo está calmo e sereno com todos os episódios (tricas segundo ele) à volta da censura ao Professor Marcelo. Porquê? Porque o que aconteceu foi numa televisão privada. E é retumbante: “Chateava-me (e há-de chatear-me, um dia, às tantas) era se se passasse na televisão pública. Aí é que era grave. Nas outras todas, dezassete que sejam, é previsível, provável, se calhar inevitável. Que se entendam.”

Se ele me permite, eu discordo e considero este raciocínio, parecendo-me algo cínico, perigoso. E digo-o porque considero que o besugo é um homem das liberdades. Caso contrário, em vez de um blogue, publicava panfletos, convocatórias, repreensões registadas e ordens de serviço.

A liberdade, qualquer liberdade, incluindo a liberdade de expressão, se tiver áreas, redis, círculos, esferas, zonas, campos, domínios, deixa de ser liberdade. Uma liberdade é ou não é. Porque ninguém tem, pode ter, a capacidade de limitar a liberdade. Quem o fizer, quando o fizer, matou-a. Pode tê-la substituído por um produto, mais vendável que a liberdade, mas terá de vendê-la com outra marca. Se tiver vergonha e escrúpulos, é claro.

A informação, para ser informação, distinguindo-se da propaganda ou do marketing de ideias, tem de assentar em pressupostos e regras mínimas de exercício da liberdade na informação e na expressão. Caso contrário, tem de haver aviso aos consumidores de que ali se exprime apenas algumas vozes (as vozes x) e algumas ideias (as ideias y). A não ser assim, há prevaricação dolosa de publicidade enganosa. E a TVI, no caso, diz que pratica informação, vende informação. Se passou a estar ao serviço de um governo, ou de um partido, ou de uma igreja, é obrigada a avisar e depois só de lá se serve quem quiser.

Quando se privatizaram jornais, rádios e televisões, as mensagens justificativas sempre foram: ia aumentar o pluralismo, melhorar o conteúdo, sermos mais livres no acesso à informação e à expressão de ideias. E até certo ponto, até foi isso mesmo que aconteceu. Mas o compromisso de raiz, de honra até, que presidiu à onda privatizadora dos órgãos de informação foi mais liberdade, nunca menos liberdade e muito menos uma espécie de liberdade, a entendida segundo os critérios restritivos dos novos donos, accionistas e capatazes.

Não é perverso, quando o Estado passou quase tudo o que tinha a passar de público a privado, defender agora os critérios de não censura apenas para os bocados que sobraram? O nosso critério de opinião livre e direito livre de informação, em termos de televisão, só se cingem à RTP? Como? O resto é, por natureza, a bagunça e a manipulação? Nas calmas. Por amor de quem?

E não é selvagem (perdoe-se a dureza do termo) a brutalidade da ideia de que os privados são donos e senhores dos seus reinos, isentos do direito, das regras, dos usos, dos costumes e das obrigações? Como se numa sociedade, alguém, por mais poder e dinheiro que tenha, possa constituir coutadas em que os direitos constitucionais e as leis fiquem à porta.

Não admite, estimado besugo, que no caso de que tratamos, e para seguir a sua lógica, a TVI não avisou, devendo avisar, que serve o que quer, o lixo que quer, mas não presta informação? No seu conceito tão absoluto do poder privado nem a isso acha que temos direito?
publicado por João Tunes às 00:42
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1 comentário:
De mfc a 9 de Outubro de 2004 às 01:34
A liberdade, essa sim é que tem que ser global.
Principiemos por aí que é um bom começo.


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