Sexta-feira, 8 de Outubro de 2004

SOBRE UM LAMENTO VITAL

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Vital Moreira referiu a perspectiva de alargamento da UE até ao Bósforo com inclusão da Turquia. E chamou a atenção para o pouco debate que tem acompanhado, entre nós, este dado que terá enorme impacto no futuro da Europa comunitária. Mas, pela sua parte, limitou-se aos factos e poupou na apreciação. Uma pena, porque não deixaria de ser interessante conhecer o seu ponto de vista, contribuindo para a tal discussão que tarda. Assim, ficou-se por dar a nova e, fechando-se em copas, lamentou que os outros façam o mesmo.

Já aqui disse que acho que os portugueses são tão europeus nos dias de hoje que já não se distinguem dos outros europeus ao não ligarem nadinha a essa coisa da Europa. Neste aspecto, a integração está feita e bem acabada. E não temos lá o Barroso a “comissariar”? Então está bem entregue. Siga o baile.

O afastamento dos cidadãos europeus da causa europeia é algo de muito preocupante. Porque transforma o projecto num vazio de convicções, transformando-o numa poderosa abstracção vista à distância de um bocejo. Por outro lado, a delegação por desinteresse das questões europeias nas mãos dos comissários e dos chefes de governo, permite que tudo se passe na secretaria e nos arranjos de poder onde, naturalmente, contam os mais fortes. E, se a Turquia for admitida, podemos ter esta realidade um dia em frente dos olhos: sem sabermos como nem porquê, um país muçulmano, atrasado na prática dos hábitos democráticos e dos direitos humanos, onde a mulher vive com atraso de séculos na sua aproximação da igualdade de direitos, onde as minorias são subjugadas com crueldade, com setenta milhões de habitantes (e com uma elevada taxa de natalidade), com uma mão de obra sobre-explorada e sedenta de ascender socialmente, é um dos mais fortes membros da União Europeia. Entretanto, a Europa desandou para a Anatólia sem que tivesse tempo de absorver e integrar países e povos que fazem a sua história e a sua cultura.

Lendo a magnífica entrevista de Jorge Semprún à Visão, encontrei esta reflexão que mostra a ferida do desinteresse europeu pela Europa:

“A Europa é algo que inventámos contra o totalitarismo. Foi criada para fazer a reconciliação franco-alemã e para gerar um espaço de liberdade contra um passado do totalitarismo nazi e o perigo da União Soviética. Isso fez com que a esquerda não tenha podido participar nessa Europa. Porque mesmo a esquerda reformista não era, forçosamente, anticomunista: tinha um mau estar em qualificar de “problema” o regime estalinista, até devido à sua identidade histórica, o que é compreensível. Daí que a Europa foi, de início, um projecto democrata-cristão.
Hoje quem é o inimigo da Europa? Quando não se tem um inimigo, é fácil criar um: veja-se o caso de George Bush, que inventou um. Na Europa, é mais complicado. Podemos dizer que o inimigo é a falta de liberdade. É verdade, mas é pouco palpável. Não podemos dizer que o inimigo seja o terrorismo, porque actualmente este tem uma forma particular, e a Europa tem terrorismo desde o século XIX. É isso que hoje falta para unificar a Europa, ainda que a questão seja descartada. Quando me defino como europeu, não é apenas pelos valores do passado, mas pela vontade, ou desejo, de fazer dela uma utopia concreta para os jovens. Se conseguíssemos fazer da Europa uma ideia activa, mobilizadora, exaltante, talvez essa pudesse ser a última guerra de um velho político como eu.”


Como fazer para transformar o projecto europeu em coisa viva?
publicado por João Tunes às 16:56
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