Sexta-feira, 8 de Outubro de 2004

NA BOLEIA DO DRAMA DO PROFESSOR MARCELO

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Só de raspão ouvi um ou dois nacos das charlas do Professor Marcelo. O sujeito não me interessava e muito menos me convencia. Soou-me sempre a falso. Achava e acho que ele, como Pacheco Pereira o faz, determinava à priori alvos e construía laboriosamente a retórica para os atingir. Aquilo que defendia podia ser o inverso se um interesse íntimo, uma embirração por exemplo, ou um gosto de desfeite, o determinasse e servisse de efeito. Nem o Professor Marcelo nem Pacheco Pereira me convencem minimamente pelo lado da sinceridade nas suas causas, admitindo que as tenham. Quando muito, admiro-lhes a arte da retórica, quando tenho vagares de deleite esteticista. Mas como não me disponho a ser basbaque, tentei sempre passar-lhes ao largo. E passo. Porque nunca serão meus companheiros de jornada. Qualquer jornada que tenha causa à vista. E eu não tenho pachorra para andar a gastar sapatos em jornadas sem causas. Se nem sequer tenho solas para caminhar em apoio de todas as causas que julgo com mérito. Mas nunca me incomodaram, sequer beliscaram, as suas formas de viverem a vida.

Já disse o que achava que tinha a dizer sobre a atitude do governo para calar a voz do Professor Marcelo. E repito. Estou contra. Por ele. Porque sou governado por um governo com evidências de infâmia. Porque a conspiração de tentar calá-lo é uma roda em movimento de inércia no ímpeto censório que acabará por amordaçar pessoas com causas que se queiram exprimir. Inevitavelmente. Porque se eles abatem homens sem causas acabarão por dar trancada nos que as têm. Pequenas ou grandes. As minhas e as dos outros. E dispenso-me de recitar Brecht. Até o dramatismo de se dizer que o regime democrático está em causa não me parece um exagero. Está mesmo. Porque a vaga que varreu Marcelo corre o risco de se tornar numa enxurrada que nos varra a todos a oportunidade e vontade de abrir a boca. E, às tantas, para não prejudicar as nossas vidinhas, até nos pode contaminar a praga da vontade de nos tornarmos papagaios de imitação do propagandista Delgado.

Uma enorme frente se abriu solidária com o martírio do Professor Marcelo, ora expurgado do exercício das suas charlas de opinião. Da esquerda até à direita, passando pelo centro e por aqueles que entendem que não há esquerda nem direita. Óptimo. Sinal que a censura gera vivos reflexos de vómito democrático. E que esses reflexos são abrangentes. Eu estou nessa. Sem dúvida. Censura, nunca mais.

Mas, se não é pedir muito, digo que gostaria que se aproveitasse o balanço e fôssemos mais ao fundo da questão, como sói dizer-se. Por um lado, alargar a indignação ao modo como se está a afunilar e enfraquecer as formas de estruturação da opinião pública. Porque a concentração dos media está a uniformizar o exprimir. Porque a luta selvagem da conquista de um posto de trabalho no jornalismo está a fazer prevalecer o ímpeto do bombástico pelos jovens estagiários em desfavor do jornalismo consistente. Porque as shares e as contas publicitárias incitam à difusão do imbecil. Porque a PT é hoje um polvo que ameaça com o totalitarismo da uniformidade e do controlo sobre o que vemos, lemos e ouvimos. Correndo o risco de, sem dar por isso, deixarmos de pensar pela cabeça para pensar PT. E então, cada um de nós, virmos a ser apenas uma voz do dono.

(E já agora peço mais. Porque pedir não custa. Peço aos amigos de Cuba que são também amigos de Fidel que, pelo menos agora, se calem no clamor pela defesa da liberdade de expressão. Respeitem os jornalistas presos em Cuba. Não lhes carreguem mais nos seus penares, usando a hipocrisia de estarem com o Professor Marcelo aqui e com os carcereiros de jornalistas lá. Falando, ao mesmo tempo, da censura de Santana e dos feitos da democracia avançada em Cuba. Pode ser?)
publicado por João Tunes às 11:30
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1 comentário:
De Cludio a 8 de Outubro de 2004 às 22:54
Ora aqui está uma abordagem interessante ao caso Marcelo. Concordo.


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