Quinta-feira, 7 de Outubro de 2004

NARCISO, JERÓNIMO E BENTO

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Não sei porque carga de água, o meu amigo Raimundo Narciso virou em promotor da campanha pela nomeação de Jerónimo de Sousa como sucessor de Carvalhas.

Mas como os seus argumentos são sempre de ter em conta, li e reli os seus argumentos apologéticos:

“Acho que Jerónimo de Sousa é a boa escolha. E já não era sem tempo. É uma escolha clarificadora. Carvalhas só servia para branquear, confundir e empatar.
(…)
A escolha de Jerónimo de Sousa, a confirmar-se, devolverá, o PCP à direcção de um operário. Desde a morte de Bento Gonçalves, em 1942, no campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, que o PCP andava a ser dirigido por intelectuais: Álvaro Cunhal, Júlio Fogaça enquanto Cunhal esteve preso, entre 1949 e 1960, de novo Cunhal após a fuga do Forte de Peniche em Janeiro daquele ano e depois por Carvalhas.”


Li, reli e não percebi. Até pressenti que aquilo fosse apenas um exercício de ironia cortante. Ou seja, gozar com o moribundo, desejando-lhe uma rápida viagem de pé para a cova. Bom, o melhor é fazer-me desentendido, isto é, fazer de conta que o explicito é que vale. E assim é motivo para nos desentendermos. O que é óptimo para a minha adrenalina pacifista e que se alimenta do gosto de contraditar amigos, porque assim se reduz a margem de risco de haver mal entendidos.

Como bem se sabe, Jerónimo, mais que operário, é um actor. Actor famoso -pelas peças que representa e representou na Assembleia da Burguesia e numa candidatura faz-de-conta à Presidência da República para que o proletariado, dessa vez, fizesse ouvir a sua voz. Também todos sabem qual o papel que Jerónimo representa com empenho, intuição e arte – o do proleta charmoso que o distingue dos proletas vulgares. Enquanto os proletários das massas populares se esgotam, esgotando o viço e a verbe comezinha a fazerem contas à vida, Jerónimo transmutou-se em intelectual autodidacta (construído a pulso, talvez pela leitura de Máximo Gorki, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol e Manuel da Fonseca nas bibliotecas da margem norte do Tejo, mais o afinar da voz a cantar as “heróicas” de Lopes Graça em sessões na Euterpe de Alhandra, com uns “bailes de bombeiros” pelo meio para educar a arte da sedução do feminino) e tece encantamentos mediáticos na oratória dos sofismas da luta de classes, assim medindo forças com os burgueses licenciados de palavra igualmente fácil mas com a pecha de estarem vendidos ao grande capital e ao imperialismo e arrastarem a ignomínia da sua origem de classe. Uma celebridade, pois. E que conseguiu fazer passar a imagem de romântico do proletariado. Nunca tendo construído uma ideia original, apenas debitando ao sabor dos efeitos dos conflitos das circunstâncias.

Aliás, a vida de operário - vida mesmo de operário - de Jerónimo, foi bem curta. 1974 trouxe-lhe a oportunidade da superação da praxis metalúrgica confinada aos labores numa pequena metalomecânica à beira Tejo. O PREC foi-lhe ingrato ao frustar a oportunidade de ser o líder sindical dos metalúrgicos (o must na classe operária) mas ele rapidamente se recompôs e deu a volta a essa frustação que lhe impedia a rápida viagem para o topo da CGTP e poder ser o émulo portuga e antecipado de Lula. Mas, Jerónimo, concentrando saberes autodidactas com dotes de oratória e sedução, recompôs-se e encontrou, via Comissões de Trabalhadores, um posto conforme na liderança da Cintura Industrial de Lisboa. A inorgacidade de enlace que é típica das Comissões de Trabalhadores (condenadas, por natureza, a viverem para dentro das empresas), permitiu que a Coordenadora das Comissões de Trabalhadores da Cintura Industrial de Lisboa tivesse um papel só de representação, marcando presença numas tantas reuniões para aprovar moções, mas com direito a paridade na visibilidade das muitas manifestações versus estruturas sindicais. E se as Comissões de Trabalhadores foram obra do PS para combater a hegemonia sindical do PCP e visando invertebrar o movimento operário para o confinar às paredes das empresas, a Coordenadora surgiu como estrutura de afirmação do PCP (e mais genuína pela forma como elas funcionavam em mais favorável articulação com as células de empresa). Desta forma, embora de fachada, a Coordenadora liderada por Jerónimo tinha apenas importância partidária, valorizada no jogo de representações da afirmação operária na então zona revolucionária de Lisboa. Nesta representação, o actor político Jerónimo conseguiu uma paridade face à afirmação da CGTP, onde ele não conseguira singrar. E a sua indicação para deputado pelo PCP foi a cereja em cima do bolo. Como sumo, em todos estes anos, Jerónimo não só deixou de ser operário como, em termos de estruturas de representação da sua classe de origem, os seus méritos nunca passaram de orador emérito e de escritor de moções, com talento num e noutro mister, e que sempre condimentou com a sua forma blasé de cultivar a indumentária (proleta mas in), a presença e a imagem, sabendo articular como poucos o modo romântico e sedutor de dar tom, som e cor à palavra camaradas. E tão bem representou os seus papéis (a sorte protege os audazes) que se viu alcandorado (desde o último Congresso do PCP) ao papel de membro da Comissão Política que controla a CGTP (não conseguiu ser Secretário Geral da Intersindical? Então controla aquele que é Secretário Geral!).

Levadas à letra as palavras de Raimundo Narciso, elas podem ser consideradas um insulto a Bento Gonçalves, pela comparação e pela ideia de que uma eventual liderança de Jerónimo vai retomar uma tradição de liderança operária. De facto, Bento Gonçalves foi um operário (empenhado, competente e criativo), tanto que deixou tradição no Arsenal onde foi um excelente torneiro. E Bento Gonçalves foi um operário com ideias próprias, foi líder por mérito, um mestre na organização e um mártir da luta contra o fascismo. Lendo-se hoje os seus escritos, está lá a marca da sua data e, por isso, nada acrescentam nos dias de hoje. Mas, para a sua época, Bento Gonçalves foi um líder do movimento operário de superior craveira, tenaz e a quem a luta contra o fascismo muito deve. E também foi um líder modesto que sempre valorizou mais a luta que a fama. Não merecendo, amigo Raimundo, que o ressuscitasses para o comparares com um actor da política. Assim, não contes comigo na promoção do teu candidato. Mas nunca te faltará o meu abraço amigo. E a minha consideração, mesmo quando te vejo metido em surpreendente campanhas eleitorais.
publicado por João Tunes às 18:41
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3 comentários:
De RN3 a 8 de Outubro de 2004 às 17:55
Olá meu caro Tunes. Já tinha dado pelo teu regresso. Aliás foi a minha mulher que me avisou. E homem avisado vale por dois. Por isso já me tinha deleitado na Água Lisa (Lisa? Hum...lisa? olha quem!) Água pura e fresquinha com boa prosa e boas imagens mas com os seus picos ;)
Pois tinha posto aqui um comentário logo a seguir à chegada do teu ao Puxa Palavra mas os mistérios do SAPO ou do Blogger, o que constatei mais tarde, nem dele rasto deixaram.
O que dizia era que não te vinha trazer a password para a leitura politicamente correcta da minha conversa sobre o Jerónimo de Sousa. no entanto em resposta à tuas observação adianto que na realidade não me ocorreu colocar uma ressalva que evitasse eventuais conoctações entre o grande secretário-geral do PCP que foi Bento Gonçalves e o " Fadista de Abril" (petit nom que ganhou na Assembleia da República pelas seus capacidades canoras).
Aí vai um abraço.


De Mrio Lino a 8 de Outubro de 2004 às 10:21
Estou, na generalidade, de acordo com o João Tunes no que se refere à caracterização do Gerónimo de Sousa e à sua evocação de Bento Gonçalves como figura cimeira do movimento operário em Portugal. Mas julgo também que o João Tunes compreendeu a ironia do Raimundo Narciso.
De qualquer maneira, valeu a pena o post para melhor colocar as coisas no sítio.


De Dogofilo a 8 de Outubro de 2004 às 09:30
E eu que julgava o Jerónimo um puro dos puros, um duro dos duros no PCP... Está-se sempre a aprender. E, uma vez mais, o conhecimento da história, mesmo a das trajectórias pessoais, é por demais elucidativa.


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