Quarta-feira, 6 de Outubro de 2004

NA HORA DOS DUROS?

carvalhas.jpg

A forma e o meio utilizados por Carlos Carvalhas para anunciar publicamente a sua renúncia ao cargo de Secretário-Geral do PCP, é, na aparência, um exotismo. Do ponto de vista de qualquer partido, muito especialmente se se considerar a liturgia própria do PCP. As razões para este exotismo podem ser várias – dar imediatamente a volta a uma fuga de informação, jogada de marketing para marcar pontos na aparente banalização de um acto de extrema importância e ressonância, clímax no agudizar de eventuais conflitos internos, potenciar efeitos dramáticos para consumo interno e externo, sinal de endurecimento ortodoxo face à derrota da aliança à esquerda no PS, esgotamento físico e psicológico de Carvalhas. Num partido onde a essência é escondida dos militantes e da opinião pública, dificilmente se virão a saber os comos e porquês deste anúncio feito daquela forma. Assim, resta a especulação, estando garantido que ela vai trazer o PCP para a ribalta, que mais não seja pela curiosidade irreprimível de tentar adivinhar quem será o sucessor. E assim, a opacidade, o mistério, a arte de bastidores, coisas que são estruturais no centralismo democrático e genuínas das profundezas da sua abencerragem, vão-se prestar à notoriedade, à notícia e ao drama político, agigantando o peso do PCP na cena política e levando-o a uma fasquia acima da sua representatividade e do seu declínio.

O esgotamento de Carvalhas era evidente há muito. E se a libertação não se deu há mais tempo, penso que isso se deve a três factores:

- A sua natureza conformista prestar-se a que servisse, tanto tempo e com consumo de grande parte dele a liquidar politicamente muitos dos seus amigos no partido, numa missão que perfidamente lhe foi atribuída pela fracção (os companheiros de Cunhal) que, há muito, se apoderou da direcção do PCP e dela não larga mão.

- A sua assunção de mártir da disciplina que é apanágio de grande parte dos intelectuais do PCP, forma perversa de purgarem a sua origem de classe, pecado dissonante com a apregoada hegemonia da representatividade social do partido.

- Ser apenas agora, no ponto mais baixo da penetração política e social do PCP, que se julguem reunidas as condições para que o partido assuma a política de quadros de poucos mas bons, isto é, que chegou a hora dos puros e duros, desencadeando mecanismos reflexos de fundamentalismo obreirista e de ressentimento, face a alterações sociais e políticas profundas que empurraram o PCP para papeis cada vez mais secundários na vida política, sobretudo quando o PS reafirmou que não precisa da ajuda do PCP e quando o Bloco de Esquerda lhe toma o lugar de polarizador da radicalidade e da performance do protesto oposicionista.

As previsões de que o PCP vá agora ser mais duro, casam perfeitamente com os objectivos da fracção dirigente, eximindo-se ao julgamento político de ter levado o partido para um beco sem saída, em que, politicamente, parecia condenado a morrer da doença ou da cura. Por um lado, reforça a coesão e a motivação dos militantes que lhe restam, pelo redencionismo próprio da minoria acossada, transformando a pulsão da rejeição da decadência em elan para o combate pela sobrevivência e para a representação do contra-ataque. Por outro lado, para fora, para a sociedade e para os restantes partidos, pretende-se contabilizar o efeito de susto ao pressentirem que têm de lidar, a partir de agora, com um partido em regresso à dureza leninista, em que o poder de susto compensa a perda de representatividade.

Um caso para seguir atentamente. Para já, num aparente paradoxo, dando razão ao discurso de Jaime Gama no Congresso do PS e que tanta boa alma escandalizou. Porque o obsoleto está na boca de cena.
publicado por João Tunes às 02:08
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