Quinta-feira, 23 de Setembro de 2004

NILO E SINAI (15)

Egipt_15.JPG

A Barragem de Assuão é a maior de África e uma das maiores em todo o mundo. A prisão das águas do Nilo na albufeira deu lugar a uns dos maiores lagos artificiais do mundo, baptizado como Lago Nasser.

Muita água de facto e posta ao serviço de grandes utilidades e de grandes atentados à mãe natureza. Mas O Assuão não tem mais vista que a da monotonia nem primor de arrojo estético na contrariedade da natureza. Nada que se compare à barragem que tem a medalha de prata africana – Cahora Bassa, em Moçambique, e que é um espectáculo de grandeza medonha no despenhar de águas, garganta do Zambeze abaixo.

Sabe-se que, nestas coisas do grande progresso, são muitos os prós e outros tantos os contras.

Assuão foi obra gigantesca que conciliou, na cabeça de Nasser, o sentido faraónico do poder vanguardista e redentor e o desejo de dar um empurrão de progresso ao Egipto. Sem o Assuão, dificilmente o progresso chegaria pela industrialização, pela modernização e pela qualidade mínima de vida aos camponeses atrasados e carentes, arrastando-se ao mando das leis do rio.

Nasser saberia, tão bem como sabemos hoje, que o preço desse progresso ia ser alto (demasiado) – destruição de grande parte do legado civilizacional e monumental da cultura egípcio-núbia (uma parte, ainda a Unesco conseguiu salvar das águas); as alterações climatéricas; o desenraizamento e deslocamento das tribos núbias; perda do efeito nutriente do Nilo sobre as suas margens (porque as inundações acabaram e os nutrientes vegetais que o rio traz de África passaram a ficar retidos nas comportas) e consequente progresso da desertificação até à linha de água do Nilo. Hoje falta a bênção dos aluviões e sobra a destruição química de terras pobres pelo exagero no uso de adubos. Como se a química pudesse substituir a bênção da natureza.

Americanos, ingleses e franceses viraram as costas no apoio à obra de Faraó Nasser, os primeiros a quem ele pediu apoio para a construção da barragem. Não por causa do ambiente, note-se. Nasser era um desalinhado com ímpetos de progressismo “socialista-árabe”. Então, Nasser virou-se para os soviéticos e aí encontrou todo o apoio que deu origem à maior realização da tecnologia soviética fora de portas. Por um lado, a URSS precisava de marcar pontos em Àfrica e no mundo árabe, por outro lado, há muito que o Kremlim tinha feito tábua rasa das preocupações ambientais quando a industrialização era para avançar a todo o vapor. Na altura, Nasser era uma das melhores cartas a jogar no tabuleiro geo-estratégico. Para os americanos, era carta a descartar (Israel era o ás de trunfo). Nasser tornou-se aliado soviético apesar de, antes, ter liquidado os comunistas egípcios até ao último exemplar. Mas isso sempre foram miudezas para a praxis m-l.

E se aquilo é terra núbia, terá havido alguma consideração étnica na balança da decisão. As grandes vítimas seriam os negros egípcios-núbios, não é verdade? E os beneficiados não eram os egípcios-árabes? Qual a dúvida, então?

Nasser não viveu o suficiente para inaugurar, no início da década de setenta do século XX, a Barragem de Assuão. Coube ao seu sucessor, Sadat, cortar a fita, correr com os soviéticos do Egipto para fora, tornar-se amigo de americanos e construir a detente com os israelitas (não gostaram os Irmãos Muçulmanos desta última parte e limparam-lhe o sebo, como se sabe).

O progresso passa por ali (incluindo o da vitória do deserto). Naquele monstro de massa de água a alimentar turbinas.

(Foto de Pedro Tunes)
publicado por João Tunes às 23:34
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3 comentários:
De Joo a 24 de Setembro de 2004 às 13:39
Não comparo, caro Marco. Não conheço Kariba. Mas Kariba tb é lago artificial? Os egípcios dizem que o Lago Nasser é o maior lago artifical do mundo, eu fiquei-me por "um dos maiores". Que é enorme, é. As medalhas de tamanho serão menos relevantes, julgo eu. Até porque como atentado à vida, o Lago Nasser é grande demais.


De Marco a 24 de Setembro de 2004 às 12:12
Assuão é maior que Kariba (Zimbabwe/Zambia) no Zambeze? Olhando para o mapa, o lago de Kariba parece-me maior.


De Hugo a 24 de Setembro de 2004 às 07:38
Os anos 70 já lá vão mas continua a ser difícil conciliar a ecologia com o desenvolvimento...


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