Quarta-feira, 22 de Setembro de 2004

NILO E SINAI (10)

Egipt_10.JPG

Nilo. Entre os que conheço, o soberano dos rios. Obrigado Pedro.

Idolatro rios. Os rios habitam-me e dão-me o cajado para aguentar o peso e a leveza da alma. Talvez para não dar uma cabeçada na esquina mais próxima e ofender a minha Mãe perguntando-lhe com que direito permitiu que eu viesse ao mundo (diria assim, em acto malvado, porque sei que fui mais permitido que desejado). E a última pessoa a ofender, sequer incomodar, é a Mãe (religião minha).

Amar tem que ter um critério. Mesmo que estúpido, irracional ou apenas sem conta nem medida. Porque tem de haver algo de profundamente racional na irracionalidade mais funda. Talvez adore rios por simples míngua de ícones. Sei lá. Gosto. Gosto mesmo. Um dia destes vou entender o intendível…

O Douro marcou-me as origens e o reencontro juvenil. No Pinhão e na Foz (um bónus de desperdício para a insuportável cambada de tripeiros bimbos).

O Tejo ficou-me como companheiro de toda a vida. Desde que o vi como fronteira entre o Barreiro do meu formato como homem e a capital do Império. Depois, odiei-o como rio que me levou às penas em África (confesso que lhe cuspi nas águas quando o Niassa levantou ferro). Agora, tenho-o na paz serena de companheiro a quem apenas verbero impedir-me tantas horas de beijar a minha amada. Mas o rio mais bonito do mundo, isso sempre. Não pelos seus méritos (sei lá quais são os méritos do Tejo…). Apenas porque é meu (ai os afectos que repousam no sossego da posse!). Tanto que, quando lhe olho as águas, não sei quais são dele mesmo ou são partes minhas. A minha filiação no Tejo levou-me a querer-lhe os cursos de alimento. O Zêzere é o Adónis do Tejo, vê-se bem. Mais bonito que o pai como convém para quem tem sina de se desfear, desfazendo-se quando se entrega ao mar. Subindo-lhe as entranhas, fui encontrá-lo no fio humilde do Unhais a fazer um risco ao meio em Pampilhosa da Serra, depois de cair escancarado da Barragem de Santa Luzia. Tejo, um sortilégio de afectos, será isso?

O meu critério de apreciação de cidades por esse mundo fora, dependeu em larga medida do olhar sobre os seus rios. Talvez por isso, a minha adoração por Praga, por Bagdade e por Kiev. E a embirração fluvial com Paris, Londres, Moscovo e Madrid.

Faltava o Nilo. Pois faltava. E agora? Sentença salomônica: o Tejo fica com o afecto e o Nilo com a soberania. Merece voltar-lhe. Ao Nilo. Porque o encantamento seca a garganta e o talento, voltarei a falar do Nilo quando a minha voz puder sair do casulo da emoção. Raio de defeito este que me faz chorar mais facilmente do que odiar. E eu sei bem que um homem não chora, nunca chora. Muito menos perante um rio. Sobretudo quem só conseguiu soltar cristais de cloreto de sódio no último olhar perante a sua mãe em repouso de despedida e, depois, ficou com o remorso da imagem das águas dos rios para compensar o défice líquido que falhou no maior adeus. Assim sendo, até depois.
publicado por João Tunes às 16:30
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2 comentários:
De Carlos a 23 de Setembro de 2004 às 01:25
Eu gosto de olhar o mar.
Foi um retrato cristalino, amigo João.


De Guilherme a 22 de Setembro de 2004 às 17:27
Adorei visitá-lo. Viajei consigo também. http://tribunalivre.blogs.sapo.pt e http://fotogui.blogs.sapo.pt


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