Terça-feira, 21 de Setembro de 2004

NILO E SINAI (8)

Egipt_8.JPG

Impossível seguir e decifrar todos os sinais das marcas faraónicas. Já não é nada mau apanhar-lhes pegadas do rasto e tentar entender (tarefa nada fácil) alguns dos motivos, enquadrando-os no tempo e no espaço. E a floresta imensa de pistas e de hipóteses não facilita. Ainda bem, pois permite-se que a imaginação navegue e se faça todo o tipo de projecções (para o passado e para o futuro). Talvez seja isso, acrescido à miríade de testemunhos largados ao porvir pela antiguidade egípcia, que constitui o cerne da atracção irresistível que a egiptologia exerce em tão largas camadas (cultas e menos cultas) de todos os continentes. Ao fim e ao cabo, o homem, qualquer homem, tem a ambição de saber de onde vem para, pelo menos, serenar a inquietação do mistério (ou do medo) de tentar adivinhar qual o tal sítio para onde vai.

O poder faraónico foi patológico no modo como exprimiu o absolutismo da capacidade do querer versus os limites castradores e inelutáveis da mortalidade dos seres vivos. Ou seja, os faraós foram sempre inquietados, maniacamente, pela luta exacerbada entre as pulsões que conduziam ao infinito (no querer, no poder, no fazer e no ter) e a pulsão da decepção pelo finito (a morte). Ao cabo e ao resto, nada de diferente das tormentas eternas dos mortais de todos os tempos. A grande diferença estará em que o homem vulgar (ontem, hoje e amanhã) recorre à mezinha de se apagar através da consciência da sua insignificância, conseguindo atomizar-se, mas o poder absoluto quer ser total e absoluto na vida, prolongando-a para além da morte.

Claro que falar em poder faraónico é uma simplificação. Os interesses pela gestão dos medos eram muito vastos e os verdadeiros centros de poder provavelmente lhes passavam ao lado (nos sacerdotes?). Porque toda aquela angústia representada parece ser demasiada para qualquer ser humano, o mais certo é que os próprios faraós fossem apenas actores menores, tão mimados quanto manipulados, de uma encenação genial e burocraticamente estabelecida pelos espertos racionalizadores da metafísica (sacerdotes, escribas, vizires, arquitectos, nobres) que, aumentando poder e proventos, iam acrescentando mito sobre mito, imitando a construção das pirâmides ou dando a chave para a sua concepção.

Aquela civilização desmedida não pode ter sido obra de uma sucessão de poderes individuais, mesmo sendo (real ou fingidamente) absolutíssimos no querer e no poder. Para mais, como seria então possível decifrar o enigma de um número apreciável de faraós terem sido crianças (e mulheres, numa fase em que elas eram pouco mais que instrumentos procriadores)? Os faraós terão sido, mais que poderosos, instrumentos de concentração de mitos manipulados, neles convergindo a representação dos interesses e dos medos do poder real.

Tenha-se em conta que o faraó, logo que empossado, era marcado pela obsessão do finito e da luta pela sua superação. A principal função e investimento que lhe era atribuída, na entronização, era a preparação da sua vida eterna, ou seja, a sua vida depois da sua morte. O que, desde logo, era uma forma de o aprisionar no medo da morte e desvalorizar o poder do seu mando enquanto Rei vivo. E alguns haveriam mais que interessados em empurrar o faraó para a paranóia do simbólico, deixando que a praxis lhes escapasse das mãos, caindo noutras. Por outro lado, a atribuição de um papel divino aos faraós não resultava noutra coisa que não fosse o afastamento da gestão corrente dos bens e da ideologia. A mumificação, a prevalência dos templos funerários relativamente aos palácios de residência, a preparação da residência funerária desde o início do reinado, evidenciam o quê? Pois, faraó posto, faraó morto.

Que dizer ainda da regra do incesto aplicada como apanágio e privilégio das famílias faraónicas? Porque é que a maioria dos faraós, e candidatos a serem-no, desposavam as filhas, as mães e as irmãs (ou quando uma mulher era faraó fazia o mesmo nos ramos masculinos)? Obviamente que o pretexto era a circunscrição da elite mas havia, decerto, quem soubesse que a descendência assim gerada seria mais facilmente manipulável e aumentaria o grau de diminuições patológicas propícias a alimento das derivas simbólicas.

Para grandes poderes, grandes representações. Sobretudo quando os meios parecem infinitos. As marcas da civilização egípcia, essencialmente de tipo funerário, permaneceram pelo seu excesso (na quantidade e na monumentalidade), pela genialidade da sua execução e contaram com o manto protector das areias dos desertos. É um espelho da estupidez do poder, do excesso de ambição face às leis da vida e do génio na forma como procurou transpor, ramificar e sacralizar os medos humanos.

Ontem como hoje?

(Foto de Pedro Tunes)
publicado por João Tunes às 23:31
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1 comentário:
De Carlos a 22 de Setembro de 2004 às 10:05
Um turista com esta predilecção por outro tipo de 'recuerdos' deveria ter as suas viagens subsidiadas. Nem Bill Bryson. Tenho lido e aprendido, obrigado João.


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