Terça-feira, 21 de Setembro de 2004

NILO E SINAI (6)

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Os setenta milhões de egípcios concentram-se em território reduzido – vale do Nilo, costa mediterrânica, ao longo do Canal do Suez e em meia dúzia de polos habitados da costa oriental do Golfo do Suez/Mar Vermelho e no norte e na periferia da Península do Sinai. A macrocefalia urbana é mais que evidente – Cairo (dezoito milhões de habitantes), Alexandria, Assuão e Luxor, absorvem a maioria da actividade e da massa humana.

Os contrastes sociais são gritantes porque extremados – muitos muito ricos e muita vida de subsistência precária na agricultura, na pesca e na pecuária, nos serviços básicos e uma massa imensa de lupen que vive de expedientes, pequenas serventias e comércio informal desenvolvido nos pólos turísticos. As forças armadas e de segurança têm contingentes elevadíssimos que absorvem meios humanos consideráveis. Entretanto, a classe média é pujante e numerosa, em grande parte servindo a burocracia estatal, os serviços, as empresas estatais e estrangeiras e o turismo, na sua maior parte forjada na mais importante e prestigiada Universidade árabe (Cairo). As minorias (núbios e berberes) alimentam os segmentos sociais inferiores. Segundo as regras da ocupação consolidada, a numerosa camada egípcio-árabe (hoje, perfeitamente fundida) detem o poder económico, político, cultural, religioso e militar, bem como é ela que alimenta a classe média. Abaixo da classe média, os salários são muito baixos e calcula-se em três milhões o número de desempregados.

Os recursos não são insignificantes – receitas do trânsito no Canal do Suez, turismo, remessas de emigrantes (os egípcios alimentam uma enorme colónia de emigração qualificada porque geram excedentes de licenciados que ocupam postos relevantes e bem pagos nos outros países árabes que vivem do petróleo), petróleo e gás natural.

O aparente equilíbrio nas tensões sociais dentro de um quadro marcado pela enorme polarização sócio-económica, deve-se a: forte aparelho repressivo e limitação das liberdades (o Egipto está muito longe de qualquer padrão democrático minimamente aceitável); fusão de interesses entre o aparelho militar de comando político e a oligarquia económico-financeira; apoio do capitalismo internacional (sobretudo dos Estados Unidos); forte capacidade-tampão da classe média; peso da ideologia de obediência e de conservadorismo segregada pelo Corão; o turismo de massas que proporciona um sem número de tarefas, expedientes, artesanato e pequeno comércio que alimenta uma monstruosa economia formal mas, também e sobretudo, informal. De qualquer forma, para padrões terceiro-mundistas, a corrupção não é visível; não se vêm sinais de fome ou de subnutrição; os padrões de organização e de eficiência são altos; a delinquência está sob absoluto controlo; o optimismo e os prazeres de viver, conviver e comprar, dominam a atmosfera social.

A forma como a sociedade egípcia está formatada, torna o país num local de oferta turística aliciante – o ambiente social é agradável, as coisas estão organizadas e simpaticamente apresentadas, a gastronomia é excelente, a sede cultural encontra ali fonte para todos os excessos e exigências, há excelentes complementos de sol-mar; a simpatia egípcia é inexcedível; os preços são baixos-moderados. Sabendo isto (o enorme poder de equilíbrio sócio-económico que o turismo proporciona), o poder protege o turismo e trata excelentemente os forasteiros. Mas o mesmo sabe o fundamentalismo islâmico (reprimido com brutalidade) que procura criar pontos de rotura através da transformação dos pontos de intensidade turística em focos de acção terrorista. Alimentado sobretudo pelos meios universitários, o fundamentalismo não consegue visibilidade (desde que assassinaram dezenas de turistas alemães em Luxor há cerca de dez anos atrás) mas logicamente que não morreu nem sequer adormeceu. Para já, conseguiu o adiamento do aprofundamento das normas democráticas, o monstruoso crescimento do aparelho repressivo, alguma retracção na procura do Egipto como destino turístico e alguns retrocessos de comportamento social (sobretudo no plano da libertação da mulher).

A política oportunista do governo egípcio, iniciada com Sadat e continuada com Mubarak, segue a mesma intenção de privilegiar o status egípcio. A “moderação egípcia” afasta o país das causas bélicas perante Israel (foi esse o preço para recuperarem o Sinai); permite-lhes as boas graças americanas; ocuparem relevância na burocracia diplomática islâmica e internacional; viverem dos rendimentos. A sua diplomacia é de bazar, tudo se procurando resolver pelo regateio que desemboca no eterno ajuste por “metade do preço”. Está para ver em que medida o fundamentalismo doméstico vai permitir o prolongamento deste posicionamento constante no meio do tabuleiro. Quanto a perspectivas de avanço, elas não se vislumbram – o Islão puxa suficientemente para trás os mais tímidos arremedos de modernidade.
publicado por João Tunes às 16:35
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