Segunda-feira, 20 de Setembro de 2004

NILO E SINAI (4)

A unicidade egípcia é constituída por várias peças étnicas e civilizacionais. Muitas vezes contraditórias. Desde sempre foi assim, note-se. Não com os mesmos recortes nem com as mesmas relações de poder, mas o Egipto antigo e moderno sempre foi um puzzle, um conflito, um apetite e uma dialéctica. O que gera a eterna interrogação: Egipto é África ou Mediterrâneo (isto é, marco greco-romano)? Para não falar no Sinai (negócio à parte). Os egiptólogos dividem-se nas opiniões e os africanos verberam o centripetismo de se tentar transpor a civilização egípcia para fora da identidade africana.

VALE DO NILO:

Nem sequer o eixo do Nilo é homogéneo. O seu curso, do coração de África para o Mediterrâneo, transformou-o, desde sempre, num rio tão confuso quanto poderoso. Porque a sua enorme extensão e a riqueza que espalha no meio de medonhas mínguas, transformou-o num eixo de sobrevivência e de ponte de povos, umas vezes em harmonia, outras em disputa brava, as mais das vezes na paz da diversidade com o preço da subserviência dos mais fracos aos mais fortes.

No início da sua parte egípcia, o vale do Nilo (o Alto Nilo) é evidentemente africano e à vista desarmada. Não na paisagem (no clima, só é ainda mais quente), mas nas gentes – ali é terra núbia que se confunde com a Somália e o Sudão. Pele bem escura, ritos animistas a perdurarem, traços de sedentarização precária e forçada pelas circunstâncias, mulheres que disputam o ceptro das mais belas do mundo (e quanta beleza núbia antes fui encontrar, bem ao sul, em Moçambique, o que será prova de que a beleza dificilmente encontra poiso certo). Núbios que transportam uma arrogância engolida (pois até foram escravos e Faraós), lixados (e bem) pela Barragem de Assuão, com dores estampadas nos rostos e nos hábitos da mão estendida aos proventos do folclore turístico.

Na parte do Baixo Nilo (mais ou menos, de Luxor até ao Cairo), encontramos uma nova identidade étnica, quase nada africanizada e encharcada de marcas magrebinas e da policromia da típica arabização. O poder mora ali, nota-se. Quase todo no Cairo. Poder do Islão, poder do dinheiro, poder do mando, poder da corte castrense que criou Nasser, empossou Sadat e sustenta Mubarak (pelos vistos, amanhã apoiará o Mubarak Júnior).

Mas, numa coisa, o Nilo é uma constante. Na forma como combate e é combatido pelo deserto. Num permanente medir de forças. E, hoje (depois da Barragem de Assuão), o Nilo está na defensiva. Porque a Barragem (fonte de progresso, é claro) foi a maior afronta feita ao Nilo. Regularam-lhe o curso, controlaram os apetites das inundações, levaram a electricidade às aldeias, mas retiveram os nutrientes arrastados desde a África profunda e deixaram as marcas da secura a poucos metros do fio de água. O deserto avançou nas margens e tornou gritante o contraste daquele rio que ficou ainda mais com cara de dissonante paisagístico. E climatérico, diz o deserto, esfregando as mãos de alegria. Só ganharam os berberes líbios, com repouso mais garantido.

MARGEM MEDITERRÃNICA:

Com base na outrora poderosa e dual Alexandria, a costa mediterrânica é Magrebe, ponto final. Magrebe greco-macedónico, é claro. E estamos entendidos, portuguesmente falando. Mas não aguenta a competição com o poder centralista do Cairo.

SINAI:

É Ásia. Ou Arábia, se preferirem. Pertence ao Egipto como podia ser de outro lado ou valer por si próprio. Deserto montanhoso. E bem montanhoso. Terra berbere e partilha de outras bandas civilizacionais. Também terra de luta e de guerra, quem o não sabe? Os berberes, cansados de guerras alheias que lhe perturbaram o sossego nómada, zarparam para as costas mediterrânicas e do Mar Vermelho, passeiam agora os turistas em camelos. Ou parecido.
publicado por João Tunes às 20:57
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1 comentário:
De Theodora a 20 de Setembro de 2004 às 23:40
Vou ler devagarinho para saborear...graças a esta cumplicidade entre xicuembo e Bota Acima...aqui estou, th


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