Segunda-feira, 20 de Setembro de 2004

NILO E SINAI (2)

De forma super concentrada, é impossível digerir muita informação e muito passado. Sobretudo ali. Porque ali a pequenez do saber humano é o maior de todos os monumentos deixados em herança à sede da curiosidade.

A riqueza daqueles milénios de civilização rica e pujante dá água pela barba aos egiptólogos mais persistentes e mais dedicados. Não há egiptólogo, por mais encartado que seja, que saiba uma parte suficiente da civilização a que dedica os seus aturados estudos de toda uma vida. Quando muito, sabem uma parte para entender as pistas do todo mas cada nova descoberta baralha as pistas e impõe o recomeço do entendimento.

Como fazer? Primeiro, abrir os olhos e o entendimento, situar no tempo, no espaço e nos símbolos. Depois, evitar o ponto de saturação, parando e passando ao relance, ficando pelo olhar, deixando que os sentidos completem a fruição. E ir tecendo enlaces com o que se sabe para se sair com uma síntese aproximada. Mais, tentando obter pistas para entendermos o que somos pelo que fomos. Ideologizando, enfim. Se a ideologia nos tenta matar a abertura da curiosidade, então que nos vinguemos servindo-nos dela para organizarmos a capacidade de aprender.

Julgo que em nenhum lugar do mundo restaram tantos sinais dos tempos como no Egipto. O que restou para se ver (a que há a somar o que está para encontrar) quase que desculpa o muito que se perdeu (por saque, por heresia, por inépcia, por insensibilidade). Não há mente que aguente tanto decifrar e entender, digo eu. O que talvez não passe de desculpa de mau turista a justificar ignorâncias acumuladas.

De uma forma geral, os egípcios da actualidade são ciosos da civilização que têm para guarda e rendimento. Até parece que aquela civilização milenar os habita. No entanto, os egípcios de hoje (tirando alguma minorias que perpetuam o fardo da opressão arrastada desde os milénios faraónicos) são-lhe tão (ou mais!) estranhos que nós porque eles estão filiados numa ideologia ocupante. Velha ocupação sim, mas apenas isso. O país está completamente islamizado (as minorias cristãs e judaicas são residuais) e ali continua com todos os sinais culturais de invasor e ocupante. Hábeis para o negócio, os muçulmanos puseram a render o negócio da egiptologia. E fazem-no admiravelmente bem. A fractura cultural quase que não se nota. E os euros correm como moeda corrente e sempre a pingar (até as moedas de cêntimo de euro servem nas compras). E eles sabem bem que o que está para extrair da guarda das areias se aproxima do inesgotável, o que lhes dá um pouco de tranquilidade quando pensam em como vão alimentar setenta milhões de bocas. Tanto têm e tanto irão ter que o Faraó Nasser deu de barato a destruição de grande parte da memória núbia para construir essa Pirâmide do século passado chamada Barragem do Assuão.
publicado por João Tunes às 15:41
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