Domingo, 6 de Fevereiro de 2005

ANTÓNIO MARIA CARDOSO

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Há coisas que nem queremos saber que são. Tinha lido no jornal, talvez tenha feito uma careta (ninguém se incomodou com a mímica, pelo que deve ter sido coisa discreta) e passei à frente. Estamos por tanto que será mania picuinha querer que se guardem cicatrizes em frasco de álcool. E hoje a liberdade que se discute e se quer cada vez mais larga é a dos leões no mercado e os profetas dela vestem bem e reúnem-se no Convento do Beato a mostrar peúgas de seda e sede de desmanchar para mudar com treino de poses de ministros.

Á noite, como costume, pousei aqui, em visita mais estimada que à do jornal lido em relance. E a coisa regrediu e senti-me com vergonha de, em vez da careta que ninguém notou, não ter dado um berro que, pelo menos, espantasse os meus condóminos habituados à minha pacatez sombria de transportador de rugas a quem passou a hora de sonhar mudar alguma coisa no mundo, tirando um ou outro resmungo.

E a nobre e brilhante chuinga, não foi por mal sei-o bem, trouxe-me à ideia a manhã em que o sol me bateu na cara quando pisava o passeio e deixava para trás o portão onde um senhor inspector, em despedida, disse aos meus vinte e um anos que me esperava no regresso. Assim se marcava, então e ali, a escolha da juventude – “ voltar” ou ficar paralítico de dignidade com o “medo de voltar”. A liberdade do mercado vai transformar o antro em condomínio fino da zona nobre alfacinha. É caso para nos sentirmos mais livres, segundo os cânones do que é actual. Mas, por mim, fico com um risco mais nas rugas. Porque, até da memória, o mercado nos vai libertando.
publicado por João Tunes às 23:56
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3 comentários:
De Joo a 7 de Fevereiro de 2005 às 15:45
Homem feliz sou eu, com beijos de tão brilhantes e estimadas senhoras. A retribuição vai a caminho.


De Guida Alves a 7 de Fevereiro de 2005 às 11:13
Pois é, João. 40 anos passados sobre a "estranha aventura" pessoal, e ainda nos arrrepiamos como se pode pensar num edifício daqueles de ânimo tão leve...
De tudo quanto por lá aconteceu ao longo da sua tenebrosa função, outros melhor que eu darão conta e testemunho. Mas a mim, ainda hoje arrepia olhar para aquela fachada e recordar ou, na maior parte da vezes, imaginar, o que se passou lá dentro.
Esperemos que o bom senso prevaleça, com a ajuda indignada dos que pisaram alguma vez aquele chão...
Beijinho.


De IO a 7 de Fevereiro de 2005 às 00:39
QUE NUNCA MAIS!!! _ beijo na 'ruga' que te fiz..., IO.


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