Sábado, 5 de Fevereiro de 2005

CARNAVAL

carnaval_022[1].jpg

Vivo “on-line” com a Guiné-Bissau através da leitura do amigo Jorge Neto. Aquilo é terra que me ficou agarrada aos pés e já não sai. É uma entre várias outras terras que irão comigo para a terra, onde e quando lhe couber devolver-me à condição de pó.

Das minhas agruras por Guiné-Bissau falei e, se calhar, demais. Primeiro, fez-me bem abrir as feridas ao vento para ver se cicatrizavam, mas, depois, pela maresia ácida com que por aí se reconstrói o mito do heroísmo da “guerra no ultramar” (ou, mais cortês, “guerra em África”) elas voltam a sangrar. Falei e contei algumas das partes que mais marcaram. A mim e a uma geração, mais ferida menos ferida.

Houve quem gostasse de ler o que contei. Saltaram também as tampas de alguns ódios mal encaixotados. Um dia, recebi um mail de um anónimo, dizendo-se filho de um ex-comando, a dizer-me que me havia de chegar a roupa ao pelo. Não liguei, pois claro. Mas, no dia seguinte, recebi outro mail de alguém que, intitulando-se guineense, me dizia que apreciava a minha prosa e gostava de me conhecer pessoalmente. Como o nome do segundo nada me dizia, relacionei os dois mails e aconselhei-me a meter travão a quatro rodas. Admitindo-lhe a boa fé, expliquei a situação e pedi certificação. Ela veio, pormenorizada e documentada. Tratava-se, afinal, de um ilustre académico guineense com obra publicada e intervenção pública na diáspora guineense. O encontro deu-se, foi um enorme prazer e fiquei com mais um amigo na minha colecção. Por coincidência, verificámos que ele (mais novo que eu uns vinte anos) andou em brincadeiras de criança na mesma altura e numa das localidades em que por lá estive aquartelado. E, cá para a vaidade íntima com que se envelhecem as memórias, fiquei a fazer ponte imaginária entre aquele rosto de académico sábio que tinha na minha frente com os risos dos meninos de olhos grandes para o mundo que eu tinha conhecido nessa aldeia guineense.

Este meu amigo guineense, nas duas horas que estivemos juntos, ensinou-me muito a olhar com a distância, calma e sabedoria devida para a Guiné-Bissau. Explicou-me do porquê da sua confiança infinita no futuro da Guiné-Bissau. Da bondade grandiosa das gentes, da riqueza da terra para tão poucos habitantes, chamando-me a atenção para um facto em que nunca me tinha fixado – na Guiné-Bissau, ao contrário de grande parte de África, ninguém morre de fome. A terra, a muita água e o vegetal aguentam sempre a sobrevivência para todos. Pobreza, sim, daquela de faltar quase tudo, mas fome não, há sempre um recurso para a enganar e dar-lhe a volta. Quando lhe falei no blogue do Jorge Neto, ele disse que conhecia, pois claro, soltando uma sonora gargalhada cúmplice a sublinhar quanto aprecia as suas histórias.

Durante anos a fio, antigos camaradas castrenses (milicianos) quiseram enfiar-me em projecto de voltar à Guiné-Bissau em viagem de recordação. Recusei sempre. Não seria capaz de voltar ali feito antigo militar colonial em revisitas de episódios que estilhaçaram gentes de um lado e de outro, por força de teimosias estúpidas para que a roda da história parasse na hora do sonho de um ditador. Para mim, dessa forma, seria um acto obsceno. De modo que a minha ligação à Guiné-Bissau, ecoando-me forte, permanece mas com o respeito pelo pudor da distância. Vai-me valendo, para mitigar, a leitura do Jorge Neto. A que acrescentei este amigo guineense. E, assim, a coisa aguenta-se.

Agora, o Jorge Neto lançou um post delicioso, com lindas fotos, em que realça como, na Guiné-Bissau, faltando quase tudo, a alegria não abranda durante todo o Carnaval, sobretudo vivido pela criançada. Fiquei embevecido, a olhar o mais que pude e me consentiu a humidade dos olhos.
publicado por João Tunes às 22:39
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3 comentários:
De Joo a 6 de Fevereiro de 2005 às 18:24
Foi bom matar saudades suas, cara Demeter. Cumprimentos à Maria. Abraço.


De Demter a 6 de Fevereiro de 2005 às 11:18
Um pouco distante, mas sempre muito ligada aos corações portugueses. Adorei a foto, o post, a sensibilidade, mas vc já sabe que me encanto mesmo é com a pieguice... Os clássicos já disseram tudo sobre filosofia universal, literatura, técnicas de narrativa. Somente a experiência, a vivência, pode acrescentar alguma coisa. Isso você tem de sobra, junto com a coragem de defender suas proprias convicções. Não conheço a Africa, mas tenho o pé fincado no interesse pelas minhas origens. Grande abraço!


De Joo a 5 de Fevereiro de 2005 às 23:24
...de em blog em blog,, encontrei o seu, de que gostei bastante. Bom fim de semana. ;)


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