Terça-feira, 21 de Setembro de 2004

NILO E SINAI (8)

Egipt_8.JPG

Impossível seguir e decifrar todos os sinais das marcas faraónicas. Já não é nada mau apanhar-lhes pegadas do rasto e tentar entender (tarefa nada fácil) alguns dos motivos, enquadrando-os no tempo e no espaço. E a floresta imensa de pistas e de hipóteses não facilita. Ainda bem, pois permite-se que a imaginação navegue e se faça todo o tipo de projecções (para o passado e para o futuro). Talvez seja isso, acrescido à miríade de testemunhos largados ao porvir pela antiguidade egípcia, que constitui o cerne da atracção irresistível que a egiptologia exerce em tão largas camadas (cultas e menos cultas) de todos os continentes. Ao fim e ao cabo, o homem, qualquer homem, tem a ambição de saber de onde vem para, pelo menos, serenar a inquietação do mistério (ou do medo) de tentar adivinhar qual o tal sítio para onde vai.

O poder faraónico foi patológico no modo como exprimiu o absolutismo da capacidade do querer versus os limites castradores e inelutáveis da mortalidade dos seres vivos. Ou seja, os faraós foram sempre inquietados, maniacamente, pela luta exacerbada entre as pulsões que conduziam ao infinito (no querer, no poder, no fazer e no ter) e a pulsão da decepção pelo finito (a morte). Ao cabo e ao resto, nada de diferente das tormentas eternas dos mortais de todos os tempos. A grande diferença estará em que o homem vulgar (ontem, hoje e amanhã) recorre à mezinha de se apagar através da consciência da sua insignificância, conseguindo atomizar-se, mas o poder absoluto quer ser total e absoluto na vida, prolongando-a para além da morte.

Claro que falar em poder faraónico é uma simplificação. Os interesses pela gestão dos medos eram muito vastos e os verdadeiros centros de poder provavelmente lhes passavam ao lado (nos sacerdotes?). Porque toda aquela angústia representada parece ser demasiada para qualquer ser humano, o mais certo é que os próprios faraós fossem apenas actores menores, tão mimados quanto manipulados, de uma encenação genial e burocraticamente estabelecida pelos espertos racionalizadores da metafísica (sacerdotes, escribas, vizires, arquitectos, nobres) que, aumentando poder e proventos, iam acrescentando mito sobre mito, imitando a construção das pirâmides ou dando a chave para a sua concepção.

Aquela civilização desmedida não pode ter sido obra de uma sucessão de poderes individuais, mesmo sendo (real ou fingidamente) absolutíssimos no querer e no poder. Para mais, como seria então possível decifrar o enigma de um número apreciável de faraós terem sido crianças (e mulheres, numa fase em que elas eram pouco mais que instrumentos procriadores)? Os faraós terão sido, mais que poderosos, instrumentos de concentração de mitos manipulados, neles convergindo a representação dos interesses e dos medos do poder real.

Tenha-se em conta que o faraó, logo que empossado, era marcado pela obsessão do finito e da luta pela sua superação. A principal função e investimento que lhe era atribuída, na entronização, era a preparação da sua vida eterna, ou seja, a sua vida depois da sua morte. O que, desde logo, era uma forma de o aprisionar no medo da morte e desvalorizar o poder do seu mando enquanto Rei vivo. E alguns haveriam mais que interessados em empurrar o faraó para a paranóia do simbólico, deixando que a praxis lhes escapasse das mãos, caindo noutras. Por outro lado, a atribuição de um papel divino aos faraós não resultava noutra coisa que não fosse o afastamento da gestão corrente dos bens e da ideologia. A mumificação, a prevalência dos templos funerários relativamente aos palácios de residência, a preparação da residência funerária desde o início do reinado, evidenciam o quê? Pois, faraó posto, faraó morto.

Que dizer ainda da regra do incesto aplicada como apanágio e privilégio das famílias faraónicas? Porque é que a maioria dos faraós, e candidatos a serem-no, desposavam as filhas, as mães e as irmãs (ou quando uma mulher era faraó fazia o mesmo nos ramos masculinos)? Obviamente que o pretexto era a circunscrição da elite mas havia, decerto, quem soubesse que a descendência assim gerada seria mais facilmente manipulável e aumentaria o grau de diminuições patológicas propícias a alimento das derivas simbólicas.

Para grandes poderes, grandes representações. Sobretudo quando os meios parecem infinitos. As marcas da civilização egípcia, essencialmente de tipo funerário, permaneceram pelo seu excesso (na quantidade e na monumentalidade), pela genialidade da sua execução e contaram com o manto protector das areias dos desertos. É um espelho da estupidez do poder, do excesso de ambição face às leis da vida e do génio na forma como procurou transpor, ramificar e sacralizar os medos humanos.

Ontem como hoje?

(Foto de Pedro Tunes)
publicado por João Tunes às 23:31
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|

NILO E SINAI (7)

Egipto 1342.JPG

Naquele meio e com tantos turistas à solta, o simpático e paciente camelo não podia faltar. Eles não só não faltam como abundam. São sobretudo conduzidos por núbios e berberes. Um passeio de camelo faz parte da ementa de qualquer turista. O andamento é agradável (em ondas suaves) e a emoção não falha no arranque e na chegada (pelo facto de levantarem e baixarem, em etapas distintas, os dois pares de patas).

Para além do turismo, o camelo continua a ter uso intenso de utilidade para as tribos que vivem nos desertos ou neles se deslocam e serve às mil maravilhas para o patrulhamento policial nas zonas mais áridas (caso das pirâmides junto ao Cairo).

Pensando bem, deserto sem camelo não é deserto mesmo.

(Foto de Pedro Tunes)
publicado por João Tunes às 19:14
link do post | comentar | favorito
|

NILO E SINAI (6)

EGIPTO-MULHER.JPG

Os setenta milhões de egípcios concentram-se em território reduzido – vale do Nilo, costa mediterrânica, ao longo do Canal do Suez e em meia dúzia de polos habitados da costa oriental do Golfo do Suez/Mar Vermelho e no norte e na periferia da Península do Sinai. A macrocefalia urbana é mais que evidente – Cairo (dezoito milhões de habitantes), Alexandria, Assuão e Luxor, absorvem a maioria da actividade e da massa humana.

Os contrastes sociais são gritantes porque extremados – muitos muito ricos e muita vida de subsistência precária na agricultura, na pesca e na pecuária, nos serviços básicos e uma massa imensa de lupen que vive de expedientes, pequenas serventias e comércio informal desenvolvido nos pólos turísticos. As forças armadas e de segurança têm contingentes elevadíssimos que absorvem meios humanos consideráveis. Entretanto, a classe média é pujante e numerosa, em grande parte servindo a burocracia estatal, os serviços, as empresas estatais e estrangeiras e o turismo, na sua maior parte forjada na mais importante e prestigiada Universidade árabe (Cairo). As minorias (núbios e berberes) alimentam os segmentos sociais inferiores. Segundo as regras da ocupação consolidada, a numerosa camada egípcio-árabe (hoje, perfeitamente fundida) detem o poder económico, político, cultural, religioso e militar, bem como é ela que alimenta a classe média. Abaixo da classe média, os salários são muito baixos e calcula-se em três milhões o número de desempregados.

Os recursos não são insignificantes – receitas do trânsito no Canal do Suez, turismo, remessas de emigrantes (os egípcios alimentam uma enorme colónia de emigração qualificada porque geram excedentes de licenciados que ocupam postos relevantes e bem pagos nos outros países árabes que vivem do petróleo), petróleo e gás natural.

O aparente equilíbrio nas tensões sociais dentro de um quadro marcado pela enorme polarização sócio-económica, deve-se a: forte aparelho repressivo e limitação das liberdades (o Egipto está muito longe de qualquer padrão democrático minimamente aceitável); fusão de interesses entre o aparelho militar de comando político e a oligarquia económico-financeira; apoio do capitalismo internacional (sobretudo dos Estados Unidos); forte capacidade-tampão da classe média; peso da ideologia de obediência e de conservadorismo segregada pelo Corão; o turismo de massas que proporciona um sem número de tarefas, expedientes, artesanato e pequeno comércio que alimenta uma monstruosa economia formal mas, também e sobretudo, informal. De qualquer forma, para padrões terceiro-mundistas, a corrupção não é visível; não se vêm sinais de fome ou de subnutrição; os padrões de organização e de eficiência são altos; a delinquência está sob absoluto controlo; o optimismo e os prazeres de viver, conviver e comprar, dominam a atmosfera social.

A forma como a sociedade egípcia está formatada, torna o país num local de oferta turística aliciante – o ambiente social é agradável, as coisas estão organizadas e simpaticamente apresentadas, a gastronomia é excelente, a sede cultural encontra ali fonte para todos os excessos e exigências, há excelentes complementos de sol-mar; a simpatia egípcia é inexcedível; os preços são baixos-moderados. Sabendo isto (o enorme poder de equilíbrio sócio-económico que o turismo proporciona), o poder protege o turismo e trata excelentemente os forasteiros. Mas o mesmo sabe o fundamentalismo islâmico (reprimido com brutalidade) que procura criar pontos de rotura através da transformação dos pontos de intensidade turística em focos de acção terrorista. Alimentado sobretudo pelos meios universitários, o fundamentalismo não consegue visibilidade (desde que assassinaram dezenas de turistas alemães em Luxor há cerca de dez anos atrás) mas logicamente que não morreu nem sequer adormeceu. Para já, conseguiu o adiamento do aprofundamento das normas democráticas, o monstruoso crescimento do aparelho repressivo, alguma retracção na procura do Egipto como destino turístico e alguns retrocessos de comportamento social (sobretudo no plano da libertação da mulher).

A política oportunista do governo egípcio, iniciada com Sadat e continuada com Mubarak, segue a mesma intenção de privilegiar o status egípcio. A “moderação egípcia” afasta o país das causas bélicas perante Israel (foi esse o preço para recuperarem o Sinai); permite-lhes as boas graças americanas; ocuparem relevância na burocracia diplomática islâmica e internacional; viverem dos rendimentos. A sua diplomacia é de bazar, tudo se procurando resolver pelo regateio que desemboca no eterno ajuste por “metade do preço”. Está para ver em que medida o fundamentalismo doméstico vai permitir o prolongamento deste posicionamento constante no meio do tabuleiro. Quanto a perspectivas de avanço, elas não se vislumbram – o Islão puxa suficientemente para trás os mais tímidos arremedos de modernidade.
publicado por João Tunes às 16:35
link do post | comentar | favorito
|

NILO E SINAI (5)

Egipto 588.JPG

O Egipto é um dos países mais importantes e poderosos de África, do mundo de ocupação árabe/muçulmana e do Magrebe. Acresce a sua colocação numa zona nevrálgica de transição de África para o Mediterrâneo, de África para a Ásia, paredes meias com Líbia, Israel, Palestina e Arábia Saudita. Possui o Canal do Suez que assegura a rota entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho/Índico.

Com uma área territorial imensa, a sua população de setenta milhões de almas (devotas de Maomé na sua esmagadora maioria, tanta que quase faz o pleno) concentra-se num enorme T (rodeado de deserto inóspito) formado pelo vale do Nilo (cujas margens com vida humana, animal e vegetal, raramente excedem os cem metros) e a costa mediterrânica. No Cairo, amontoam-se dezoito milhões (!) de egípcios. Em mais de noventa por cento do território reina o deserto absolutamente inabitável.

O Egipto enquadrou-se, desde o poder pré-feudal, dentro do perfil de colónia desejada, tendo sido dominado por quase todas as potências com apetência colonizadora. Julgo que, essencialmente, devido a três factores – o seu posicionamento estratégico, as riquezas naturais e o peso simbólico da sua riquíssima civilização, propícia a gerar quistos de complexos na ideologia de superioridade dos conquistadores. A regra foi sempre a rendição cultural dos ocupantes à força monstruosa e inapagável da civilização acumulada no vale do Nilo. Os colonizadores dominaram, expropriaram, exploraram, mas tiveram sempre de se ajoelhar perante a monumentalidade inapagável daquela herança civilizacional inesgotável. Esse mesmo efeito de continuidade de sublimação da grandeza humana (as mais das vezes pela representação através do absurdo a desafiar todos os limites) levou a que o poder faraónico tivesse sido ocupado, em várias fases, por minorias de etnias, de mercenários ou de ocupantes - núbios, mamelucos e ptolomeicos. Ou seja, até à ocupação romano-cristã, mesmo quando as dinastias egípcias fraquejavam, o mando era sempre usurpado pela continuidade da representação faraónica.

O domínio romano-cristão foi o primeiro que tentou levar a cabo o genocídio cultural da civilização egípcia. Mas a ânsia de impor o monoteísmo e apagar os traços das adorações pagãs revelou-se estulto. Ficaram umas tantas picagens de ridículo impotente nalguns sinais de culto e pouco mais. A tarefa não podia ser cumprida. Tanto mais que os mantos das areias do deserto se encarregaram de proteger a maior parte dos símbolos, cobrindo-os e conservando-os. Assim, estranho paradoxo, o deserto – sempre em luta de posse com o vale do Nilo – mostrou-se com um tremendo fair play, protegendo o inimigo de sempre, oferecendo-lhe as areias protectoras para preservar a cultura criada pelo rio, o rival de sempre e para sempre. Dir-se-á, em ironia, que a Barragem do Assuão – pelo favor feito à progressão do deserto – terá sido o tributo com que Nasser e os soviéticos, na segunda metade do século XX, resolveram pagar a dívida de conservação cultural que o deserto antes havia prestado ao Nilo.

Na posterior ocupação islâmica, bastou o mando e Maomé, semeando mesquitas entre os espaços e as marcas anteriores. O Corão não deitou abaixo pirâmides, limitou-se a abrir as folhas, usando-as como espaldar. Ocupantes prosaicos estes. Até hoje. Sobretudo hoje.

O domínio otomano integrou o Egipto no seu espaço imperial, dando-lhe dignidade subalterna proporcional ao seu valor. Na condição que o Cairo não tentasse disputar a importância a Istambul. Não o fez. Os egípcios dobraram a espinha. A monarquia passou a ser faz de conta. Com os otomanos, depois com franceses e ingleses. Foi assim até Nasser. Porque depois de Nasser, o Egipto volta a entrar na História. Outra história, pois claro. Do velho Egipto colonial, sobrou pouco mais que Faruk, um “rei” tonto derretido em luxúria. O último. Desprezado e escorraçado pelos seus. Exilado com os bens surripiados e aboletando-se à sombra da hospitalidade de Salazar que lhe deu cama e roupa lavada na pátria lusa, a troco dos dinheiros para gastos que ele conseguiu meter na mala e por cá foi espalhando.

(Foto de Pedro Tunes)
publicado por João Tunes às 00:26
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|
Segunda-feira, 20 de Setembro de 2004

NILO E SINAI (4)

A unicidade egípcia é constituída por várias peças étnicas e civilizacionais. Muitas vezes contraditórias. Desde sempre foi assim, note-se. Não com os mesmos recortes nem com as mesmas relações de poder, mas o Egipto antigo e moderno sempre foi um puzzle, um conflito, um apetite e uma dialéctica. O que gera a eterna interrogação: Egipto é África ou Mediterrâneo (isto é, marco greco-romano)? Para não falar no Sinai (negócio à parte). Os egiptólogos dividem-se nas opiniões e os africanos verberam o centripetismo de se tentar transpor a civilização egípcia para fora da identidade africana.

VALE DO NILO:

Nem sequer o eixo do Nilo é homogéneo. O seu curso, do coração de África para o Mediterrâneo, transformou-o, desde sempre, num rio tão confuso quanto poderoso. Porque a sua enorme extensão e a riqueza que espalha no meio de medonhas mínguas, transformou-o num eixo de sobrevivência e de ponte de povos, umas vezes em harmonia, outras em disputa brava, as mais das vezes na paz da diversidade com o preço da subserviência dos mais fracos aos mais fortes.

No início da sua parte egípcia, o vale do Nilo (o Alto Nilo) é evidentemente africano e à vista desarmada. Não na paisagem (no clima, só é ainda mais quente), mas nas gentes – ali é terra núbia que se confunde com a Somália e o Sudão. Pele bem escura, ritos animistas a perdurarem, traços de sedentarização precária e forçada pelas circunstâncias, mulheres que disputam o ceptro das mais belas do mundo (e quanta beleza núbia antes fui encontrar, bem ao sul, em Moçambique, o que será prova de que a beleza dificilmente encontra poiso certo). Núbios que transportam uma arrogância engolida (pois até foram escravos e Faraós), lixados (e bem) pela Barragem de Assuão, com dores estampadas nos rostos e nos hábitos da mão estendida aos proventos do folclore turístico.

Na parte do Baixo Nilo (mais ou menos, de Luxor até ao Cairo), encontramos uma nova identidade étnica, quase nada africanizada e encharcada de marcas magrebinas e da policromia da típica arabização. O poder mora ali, nota-se. Quase todo no Cairo. Poder do Islão, poder do dinheiro, poder do mando, poder da corte castrense que criou Nasser, empossou Sadat e sustenta Mubarak (pelos vistos, amanhã apoiará o Mubarak Júnior).

Mas, numa coisa, o Nilo é uma constante. Na forma como combate e é combatido pelo deserto. Num permanente medir de forças. E, hoje (depois da Barragem de Assuão), o Nilo está na defensiva. Porque a Barragem (fonte de progresso, é claro) foi a maior afronta feita ao Nilo. Regularam-lhe o curso, controlaram os apetites das inundações, levaram a electricidade às aldeias, mas retiveram os nutrientes arrastados desde a África profunda e deixaram as marcas da secura a poucos metros do fio de água. O deserto avançou nas margens e tornou gritante o contraste daquele rio que ficou ainda mais com cara de dissonante paisagístico. E climatérico, diz o deserto, esfregando as mãos de alegria. Só ganharam os berberes líbios, com repouso mais garantido.

MARGEM MEDITERRÃNICA:

Com base na outrora poderosa e dual Alexandria, a costa mediterrânica é Magrebe, ponto final. Magrebe greco-macedónico, é claro. E estamos entendidos, portuguesmente falando. Mas não aguenta a competição com o poder centralista do Cairo.

SINAI:

É Ásia. Ou Arábia, se preferirem. Pertence ao Egipto como podia ser de outro lado ou valer por si próprio. Deserto montanhoso. E bem montanhoso. Terra berbere e partilha de outras bandas civilizacionais. Também terra de luta e de guerra, quem o não sabe? Os berberes, cansados de guerras alheias que lhe perturbaram o sossego nómada, zarparam para as costas mediterrânicas e do Mar Vermelho, passeiam agora os turistas em camelos. Ou parecido.
publicado por João Tunes às 20:57
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|

NILO E SINAI (3)

É uma autêntica lotaria de imprevistos a socialização a tempo inteiro com um grupo de patrícios em roda turística. Como em tudo, há sorte e azar. Já gramei secas que me esgotaram a paciência. Já tive a felicidade de conhecer gente interessantíssima. É uma lotaria, disse e repito. No entanto, julgo que, com o decorrer dos tempos, os riscos diminuíram por duas causas – muitos portugueses acumularam o hábito de viajar (os que os torna mais serenos nos contactos extra-muros) e já compram mais cá dentro (tornando-se mais suaves no consumismo dos recuerdos).

No caso, o destino e a motivação ajudavam a que a curiosidade sadia suplantasse a exuberância pacóvia e a atracção fatal por tudo que fosse bazar.

Grupo bacano, diversificado nos interesses e nos escalões etários (a mais nova tinha doze anos e o mais velho andava pelos setenta). Animação, interesse, espírito de entreajuda. Pessoas muito interessantes pelo meio. Para mais, uma guia culta e simpatiquíssima, charmosa e afectiva, falando português quase sem mácula, que nos reunia e nos recontava ao som do grito de guerra em chamamento: Família!. Que sorte. Sorte construída também pela simpatia transbordante dos egípcios que são o povo mais simpático que conheci até hoje. Repito, que sorte. E, assim, a viagem foi também uma festa. Para todos.
publicado por João Tunes às 17:02
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|

NILO E SINAI (2)

De forma super concentrada, é impossível digerir muita informação e muito passado. Sobretudo ali. Porque ali a pequenez do saber humano é o maior de todos os monumentos deixados em herança à sede da curiosidade.

A riqueza daqueles milénios de civilização rica e pujante dá água pela barba aos egiptólogos mais persistentes e mais dedicados. Não há egiptólogo, por mais encartado que seja, que saiba uma parte suficiente da civilização a que dedica os seus aturados estudos de toda uma vida. Quando muito, sabem uma parte para entender as pistas do todo mas cada nova descoberta baralha as pistas e impõe o recomeço do entendimento.

Como fazer? Primeiro, abrir os olhos e o entendimento, situar no tempo, no espaço e nos símbolos. Depois, evitar o ponto de saturação, parando e passando ao relance, ficando pelo olhar, deixando que os sentidos completem a fruição. E ir tecendo enlaces com o que se sabe para se sair com uma síntese aproximada. Mais, tentando obter pistas para entendermos o que somos pelo que fomos. Ideologizando, enfim. Se a ideologia nos tenta matar a abertura da curiosidade, então que nos vinguemos servindo-nos dela para organizarmos a capacidade de aprender.

Julgo que em nenhum lugar do mundo restaram tantos sinais dos tempos como no Egipto. O que restou para se ver (a que há a somar o que está para encontrar) quase que desculpa o muito que se perdeu (por saque, por heresia, por inépcia, por insensibilidade). Não há mente que aguente tanto decifrar e entender, digo eu. O que talvez não passe de desculpa de mau turista a justificar ignorâncias acumuladas.

De uma forma geral, os egípcios da actualidade são ciosos da civilização que têm para guarda e rendimento. Até parece que aquela civilização milenar os habita. No entanto, os egípcios de hoje (tirando alguma minorias que perpetuam o fardo da opressão arrastada desde os milénios faraónicos) são-lhe tão (ou mais!) estranhos que nós porque eles estão filiados numa ideologia ocupante. Velha ocupação sim, mas apenas isso. O país está completamente islamizado (as minorias cristãs e judaicas são residuais) e ali continua com todos os sinais culturais de invasor e ocupante. Hábeis para o negócio, os muçulmanos puseram a render o negócio da egiptologia. E fazem-no admiravelmente bem. A fractura cultural quase que não se nota. E os euros correm como moeda corrente e sempre a pingar (até as moedas de cêntimo de euro servem nas compras). E eles sabem bem que o que está para extrair da guarda das areias se aproxima do inesgotável, o que lhes dá um pouco de tranquilidade quando pensam em como vão alimentar setenta milhões de bocas. Tanto têm e tanto irão ter que o Faraó Nasser deu de barato a destruição de grande parte da memória núbia para construir essa Pirâmide do século passado chamada Barragem do Assuão.
publicado por João Tunes às 15:41
link do post | comentar | favorito
|

NILO E SINAI (1)

Destino de férias. Mais uma vez, a escolha foi do Pedro. Mas não a primeira porque essa sofreu duplo veto imediato. Japão? Nem pensar, fora de causa tantas horas seguidas amarrado a uma cadeira de avião. A alternativa surgiu-lhe de chofre: Egipto. Mas porquê Egipto? Por causa da civilização deles, foi o argumento rapidamente disparado. Convincente. Boa resposta e melhor motivo. Vamos nessa. Repentinamente, era mesmo para o Egipto, destino nunca antes pensado, que a todos estava a apetecer ir espairecer e enriquecer de vistas. Sítio com adivinhas de substância mais que muita. E com toda a probabilidade de ali estar o melhor bocado da costa sul mediterrânica e sendo, por sinal, o único que eu não conhecia. Tudo indicava que compensava o rombo nas finanças domésticas.

Acertados o quando e o como. Primeira semana, a descer o Nilo desde Assuão até ao Cairo (Sul para Norte). Na segunda semana, poiso de recuperação na Península do Sinai, já dentro da Ásia, com sedentarização em Sharm El Sheik no começo do Mar Vermelho. Única contrariedade à vista: seis horas de voo para lá e outras tantas na volta. Enfim, sempre melhor que zarpar para o Japão.
publicado por João Tunes às 13:24
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
|
Domingo, 19 de Setembro de 2004

ÁGUA LISA

bottle.gif

- Com água lisa !

Estas eram palavras repetidas e ditas alto. Mas diga-se por verdade, que eram mais para escutar um som de vida viva do que para dar força à ordem do rito.

Autêntica chinesice era aquela de escolher entre diluir o álcool com água gasificada ou isenta de borbulhas carbónicas. Cada um sabia que estava a agarrar-se ao acessório. Mas a vida prega-nos destas – vivermos, termos de viver, com aparências para esquecer que o transitório está sempre a ameaçar com a estocada do ponto final. Ali, tinha de ser assim.

Por norma, o Cabo da Messe sabia como se rir, sem se notar, da nossa ansiedade fardada e com galões nos ombros carregados a albardar tristezas e vontades de zarpar. Ele olhava os nossos medos mesmo no centro dos nossos olhos milicianos e repetia, navegando as palavras até desaguar na sobriedade sisuda própria de um subalterno:

- Com água lisa !

A água vinha. O álcool também. E os olhos iam ficando cada vez mais pequeninos. Talvez fugindo do gozo do Cabo da Messe. Talvez tudo. Talvez nada. Porque, verdade mesmo, escolher água lisa era das poucas escolhas que restavam para espevitar o andar trôpego da espera.
publicado por João Tunes às 00:51
link do post | comentar | ver comentários (8) | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


.posts recentes

. NOVO POISO

. COMPLEXOS DE ESQUERDA

. ONDE MEXE MEXIA?

. AGORA

. ...

. SIM, ZAPATERO

. AO MANEL

. DESGOSTO ANTECIPADO

. CHISSANO ARMADO EM SPARTA...

. DOMINGO ANTECIPADO

.arquivos

. Setembro 2007

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds