Terça-feira, 4 de Janeiro de 2005

THANKS

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Por razões que se entendem, estou para o desfasado sobre os nossos lusos assuntos. Lá irei, tardará quase nada, depois de me recompor no enquadramento.

Mas apercebi-me rapidamente que não se passou nada de fulminante, nem de lancinante e menos ainda de fascinante. Os motores estão a aquecer, é o que é.

Para já, a pré-campanha está em trabalhos de paramentos, mais na escolha das figuras, figurinhas e figurões.

A blogosfera continua animada, com boas prosas em regadio. Valha-nos isso, neste arremedo de aperitivo às mudanças em vista. E não faltaram até, pela parte que me toca, alguns mimos de pessoas que me gostam e de quem gosto. É bom sentir que por aqui se continuam usar teclados para afagar gulosos de ternura. Bem melhor que as caneladas dos cínicos, porque esses nunca faltam à chamada. Aos amigos, peço que me permitam a economia de um abraço que a todos contemple.
publicado por João Tunes às 00:20
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Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2005

TER E SABER

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Estive em Londres no pico do consumismo – a célebre época dos saldos natalícios. Oxford Street e Regent Street transformam-se, nesta parte do ano, em formigueiros medonhos e sedentos de acederem à miragem de mel das compras em conta, do que se necessita e mais outro tanto por conta da boa conta. Mas diga-se que a fleuma e a disciplina, sem necessidade de imposição, tornam amenos e suportáveis estes excessos controlados. Acaba por só chocar o excesso e a trapaça da encenação comercial na indução ao consumo.

Mas Londres ainda conserva o bom figurino das lojas em desfile da rua, à maneira do que foi, como amostra, a antiga baixa lisboeta. Tirando dois grandes e paquidérmicos Armazéns, a escolha faz-se pelo caminhar avenidas com os olhos em mirada de monstras. Não lhes caiu (ainda?) no goto a febre grotesca e concentracionária dos nossos bem conhecidos centros comerciais (a que, na minha banda, penduraram obscenamente o nome de Fórum). Por outro lado, as compras ainda são actividade reservada a gente adolescente ou adulta, com os londrinos a evitarem transportar as crianças para o tropel das catedrais do consumo. Nem usam as nossas pacóvias peregrinações familiares com a tribo completa desde a avó agarrada à bengala até ao neto de colo, mais o apêndice do carrinho para as pausas do sufoco.

Se queremos ver as famílias londrinas em tribo, criança aos molhos e esfusiantes, então o melhor é rumar-se até aos excelentes museus londrinos, com destaque para o Museu da Ciência e o Museu de História Natural (com entradas gratuitas). Ambos são primores nos recheios, na animação, na tecnologia de interacção, no convite ao prazer inesgotável pelo saber, decifrar mistérios, cultivar fantasias, tentar ter o mundo na palma da mão e procurar ler-lhe os sinais, aprendendo-lhe as ruelas. Pois é, confirma-se, a grandeza tem de ser merecida. Ou um bom mote para o velho falatório sobre a querela acerca do eterno enigma do equilíbrio instável entre o Ter e o Saber.
publicado por João Tunes às 23:56
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PELO FRIO

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Sempre fui avesso aos calores. Porque, quando aquece em demasia, e tirada a roupa, não consigo despir a pele. Para mais, acho que a espécie de que sou membro numerário, não foi feita, nem para isso está preparada, para alourar numa sertã. Talvez nos tenha faltado virmos ao mundo com o corpo condimentado numa competente vinha de alhos. E, assim, dúvidas não tenho em resmungar Tete quando me perguntam qual a última terra em que admitia viver.

Aliás, quando o calor aperta, o único problema que nos concentra e nos esgota é resolver a luta contra o termómetro, não sobrando energia para o quer que seja de útil e prazenteiro.

Sendo um temperado por vocação, tenho artes de me safar no frio, aproveitando-lhe as sortes de inspiração para inventar calores de recurso. E, talvez para disfarçar até que passe, sinto, como nunca, o apelo a pensar, ler, saber, divagar. Porque um bom frio torna qualquer comum num poeta com vontade científica de viver. E como a natureza se torna linda na sua defesa de luta contra o frio! Sobretudo quando ela se despe e se retorce na estética da nudez e nos convida a sacudirmos o frio do olhar.
publicado por João Tunes às 23:02
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BUCKINGHAM PALACE

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Ali está o mastodonte de pedra com grades à volta, ostentação vitoriana no seu pior, bunker piroso de um império que já foi, sinal de uma monarquia fora de tempo, aquecida em micro-ondas, com uma senhora com ar de tia chegadinha da província para tomar o chá e cuja principal reinação, em termos de assunto de Estado, é aturar os desatinos de um filho herdeiro a puxar para o tonto pois que nem snob consegue ser.

São isto, as monarquias faz de conta com que algumas democracias europeias se enfeitam, provavelmente por falta de ranchos folclóricos com maneiras e talentos que poupassem, na rubrica do estadão de tradição, uns bons e úteis dinheiros aos cofres onde se acolhem as moedas dos impostos.

Ali, o que lhes vai valendo, para arregalar os olhos dos mirones, é a dança do render da guarda, com os soldadinhos de casaca vermelha a sacudir o frio com passos ritmados e segurando carapuços de peluche enfiados pelas orelhas abaixo.
publicado por João Tunes às 22:26
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GREEN

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Cedinho, a percorrer o risco do penteado de Saint James Park. O frio gela mãos e pés, implica com o nariz para acabar a formar cristais na ponta, ameaça cortar as orelhas e aparar o cabelo. Alguns abaixo de zero, dissera bem cedinho uma senhora na televisão que entrara quarto dentro. O green estende-se a disfarçar o verde, com a alcatifa de geada a fazer propaganda do império do calendário. Resulta num verde baço que é o mais genuíno dos verdes, sobretudo quando eles vestem às riscas. A luz coada do sol finge que vai vencer. Mas nega-se à goleada, quer é reinar no jogo de prismas com os reflexos estendidos nas copas desgrenhadas das árvores de folha caduca, imitando velhotas cabeludas em saída da cama.

Patos, irmãos, primos e outros com ar mais de enteados que de compadres, asas caídas, debicam, entre os cristais de gelo, à procura de sementes com um ar profissional e programado de quem as julga ali propositadamente perdidas para recolhas aprazadas.

Num repente, dá a maluca na malta com penas, tudo esvoaça como se o tempo fosse de se ser livre. Misturam-se água, luz, asas abertas, bicos em riste, patas penduradas. Os anarcas chegaram ao poder? Como assim? Claro que não. Para tudo, há a sua festa. Esta é a festa possível - boa, calma e fresca - que o Inverno, com peneiras de Sir, pendura em Saint James Park. Thanks.
publicado por João Tunes às 15:53
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BEM FEITO, TOMÁ LÁ LILI

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Sou admirador compulsivo do Woody Allen. Dos filmes, diga-se. Mesmo dos menores. Até dos primeiros, em que ele pouco mais fez que treinar os olhos. A modos que se calhar mal comparado, WA é o meu Charlot reciclado, o dos tempos em que, sem psicanálise (sobretudo da difusa, daquela que entra às pinguinhas para nos entendermos melhor), não se consegue viver nem connosco nem com os outros.

De jazz, não gosto. Nem ponta. Respeito os adoradores, mas não consigo atinar como se pode gostar de ruídos encadeados. Prefiro música. Gostos.

Soube que WA esteve por cá a tocar no Casino Estoril e dar uma volta por Lisboa. Quanto à volta pela cidade, fico feliz. E se ele diz que gostou, tanto melhor. Talvez, quem sabe, esta luz única o inspire. Assim seja. Também sei que a Lili Caneças por lá esteve a ouvi-lo em pose e atenção de decotada fan. Bem feito, reajo com riso de metro e meio. Lili vingou-me, estando onde eu nunca estaria. Não há crime sem castigo, é mesmo. Nem sequer para quem se admira.
publicado por João Tunes às 12:37
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SPEAKER’S CORNER

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Claro que não podia deixar de levar o Pedro ao Speaker’s Corner, sítio que ele aliás tinha assinalado na sua agenda.

Com o passar do tempo, a representação ali tornou-se mais demencial e mais sádica. Um escape para loucos desopilarem, o que só lhes fará bem, mas também um usufruto de gozo para uns tantos testarem a sua sobriedade pela medida de desarranjos alheios, repugnante por isso. Nem mais. Nada daquilo tem a ver com liberdade. Porque não há liberdade no que é cruelmente inútil. É pouco mais, se for, que um contracto entre esquizofrénicos pendurados num escadote e umas dúzias de papalvos a gozar disparates com figura de gente.

A democracia não passa pelo Speaker’s Corner. Mas a democracia corre sempre o risco de se transformar num Speaker’s Corner. Essa, para mim, a sua única validade simbólica. Valha isso. Valerá?

Registo o desagrado, por pudor, do Pedro, que se incomoda com aquele gozo com quem vai perorar para ser gozado. Marcaste mais um ponto, digo-me.
publicado por João Tunes às 01:20
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O CÂMBIO

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O Amílcar é a modos que meu patrício. Diz-se de Mirandela, o que arrogo confirmar pelo sotaque e pelos modos.

Foi ele que nos topou, apanhando-nos a conversa que aproveitou para intrometer um talk brake no seu serviço de limpeza dos passeios da Oxford Street.

Desbobina as suas canseiras de dezoito anos de migrante londrino. O que penou nos tantos anos a três trabalhos das sete à uma da matina – limpeza, fábrica, restaurante. Um desatino que desaguou nas casas que são suas, uma em Mirandela e outra em Palmela. Agora, casas acabadas, o Amílcar abrandou a faina que reduziu a uma única ocupação de limpeza de ruas, paga a seis libras à hora. Não gosta de Londres nem dos ingleses. A mulher é que o vai prendendo por lá, porque está feita a isto. Garante que os filhos hão-de estudar em terra lusa. Tudo está caro, muito caro. O que vale é a cotação da libra face ao euro, bom para a poupança. O clima é uma tristeza, mesmo quando dá um arzinho de sol, tarda nada, chove a potes. Chove de mais. A única coisa boa dali, segundo o Amílcar, é o câmbio da libra.

Vem à fala o Benfica, o nosso Benfica. Mais o Mourinho. Do clube, dá-me a novidade esperançada do regresso do Roger. Faz-nos falta, diz ele, num remate sem defesa. Sobre o Mourinho, promete que ele se vai espalhar na segunda volta. Aqui, cinco pontos de avanço não é nada, não é como lá, as equipas são todas muito equilibradas, garante, suponho que por vontade projectada que o patrício de sucesso trambolhe lá do pedestal azul pago pelo russo rico.

Pergunta-nos o que fazemos por ali, plantados num passeio da Oxford Street. Explicamos. Pergunta se temos família por lá. Dizemos que não, somos turistas, estamos em hotel. O semblante do Amílcar muda de figura. O olhar veste o véu da distância. Suponho que faça as contas de euros para libras. Fosse pelo que fosse, evaporaram-se, num instante, as cumplicidades frescas como patrício e como benfiquista. É a vida.

Tarda nada é capaz de chover. Como disse o Amílcar que, entretanto, voltou ao ganho de libras a manter limpa a Oxford Street.
publicado por João Tunes às 00:23
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Domingo, 2 de Janeiro de 2005

E O RELÓGIO ENCOSTOU OS PONTEIROS

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O frio abranda. A chuva, simpática como não é costume, ficou-se pelas nuvens. Bandos de adolescentes cambaleiam e gritam em cachos, tentando correrias que resultam trôpegas, agarrados a garrafas, sabendo, e querendo-o, que daqui a nada vão cair num banho de vómito e uma ambulância diligente os irá levar a uma urgência sempre a postos. Os olhos estão fixados, por cima dos narizes espetados para o céu cor de chumbo, no ponteiro de um relógio que tem a mania de vaidade de que ainda dá horas ao mundo. Os polícias mostram as fardas e os sorrisos de severidade indulgente. Os semáforos, na zelosa inutilidade burocrática de todos os serventuários mecanizados, continuam as mudanças das cores. Beneméritos sorridentes recolhem donativos para as vítimas de um maremoto que teve epicentro muito longe, chocalhando baldes para fazer tilintar moedas a pedir companhia. O relógio junta os ponteiros. Já está. Grita-se, abraça-se, beija-se. Bebe-se mais. O fogo de artifício pinta a céu do Tamisa de todas as cores que brilham. A multidão, burocraticamente, cumpre o ritual da deambulação, em rebanho, até Trafalgar Square e Picadilly Circus. As ambulâncias não param, tantos são os corpos caídos a precisar de recolha. Mas ainda vão sobrar uns tantos para gozo do frio da noite. Só os bêbados, os muitos bêbados, profundamente bêbados, não sabem que já estão em 2005. Mas estão. Estamos todos.
publicado por João Tunes às 17:34
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