Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2005

AINDA SOBRE AS ELEIÇÕES NO IRAQUE

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Dois estimados vizinhos e visitantes, deixaram os seus comentários ao meu post sobre as eleições no Iraque. Ambos manifestaram posições bem diversas das minhas. E com sólidos esboços de argumentos. O que, pelo menos, é saudável como manifestação de diferença de vistas.

Como normalmente a chinela da polémica me puxa pelo pé, ainda comecei a esboçar uma resposta aos dois amigos blogo-condóminos. Mas depois, pelo respeito com dor que me merecem os povos iraquianos, martirizados por uma das ditaduras mais sanguinárias que passaram pela face da terra, pela guerra e pela invasão, pelos interesses mais ou menos disfarçados, pelo terrorismo e pelo fundamentalismo, também pela forma como a sua infelicidade é usada como bandeira de outras águas para outros moinhos, resolvi adiar a resposta para quando me sinta mais liberto da inibição em voltar a falar, já, de alegrias e tristezas com um preço tão elevado. No caso, para mais, tratando-se de um País que conheci, que me fascinou e tão bem me tratou alguma da sua gente. Pelos iraquianos, eu não posso (quem pode?) rebobinar a história. Tirar-lhes o colonialismo inglês, Sadam, a brutalidade bélica americana, as mentiras a servirem de pretexto, as bombas que lhes rebentaram as casas e os corpos, o fanatismo que turva as soluções, os nós difíceis de desatar daquele mosaico étnico-religioso desenhado a régua e esquadro coloniais. Sabendo como sabemos que só num curtíssimo período, ali a soberania se exerceu através do voto livremente expresso. E amarro-me à crença de que só pelo voto, a democracia soberana pode devolver a vontade legítima de futuro àqueles povos. Sei que é curto como argumento contra a miríade de opiniões consolidadas, sobretudo em quase todas as margens esquerdas. É, sim senhor. Mas quero, agora, parar aqui, com uma confiança muito pouco confiante. Deixem-me, agora, olhar para o Iraque com alguma esperança. Os argumentos seguirão mais tarde.

No entanto, pelo devido respeito ao exercício do contraditório, transcrevo os dois comentários, agradecendo-lhes a atenção:

“É suposto que as eleições sirvam para alguma coisa. É pensável que aqui na Europa se realizassem eleições com o quadro existente no Iraque? Penso que estará de acordo comigo, que seria impensável... Partindo do princípio que as eleições foram um acontecimento positivo (de que discordo), que possibilidade existe de real efectivação do poder? Não seria melhor criar essas condições como pressuposto para a sua realização??”
(mfc)

“João Tunes, subscreveria o teu último parágrafo, de tão bem escrito e sentido que está, mas quanto aos dois parágrafos anteriores tenho duas objecções: 1) não me parece que os iraquianos que participaram nesta plebiscitação cega de um regime vigiado e controlado pelos ocupantes, tenham podido «escolher»; 2) não percebo de que «opções para o futuro do país» estás a falar e atrevo-me a supor que alguns (muitos?) iraquianos também não. Será possível chamar democrático a um processo em que não há informação livre nem possibilidade de debate? Estou a tentar recolher mais informação sobre esta parte do processo iraquiano mas, o que já é público leva-me a crer em mais um erro crasso. Evoca-me aquela cena do filme de Buñuel em que os camponeses antes de serem fuzilados pelas tropas napoleónicas, gritavam «Á bas la liberté». Poder-se-á conceber a democracia sem liberdade?”
(Manuel Correia)
publicado por João Tunes às 17:11
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1 comentário:
De jose antnio a 6 de Fevereiro de 2005 às 15:55
Oito dias depois dos foguetes ainda andam a apanhar as canas ? Tv's, rádios, jornais, opinion makers, etc. etc. mudo e quedos. É um silêncio ensurdecedor.


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