Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2005

IRAQUE

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As eleições do Iraque terão espalhado desilusões a esmo. Paciência. O anti-americanismo que meta uns cartuchos no bolso a aguardar melhores dias. Fizeram-se e foram, antes de tudo e apesar de tudo, nas condições excepcionais em que se processaram, uma afirmação democrática de um povo desabituado de escolher. Em muitas décadas, ou estava tudo decidido por todos ou caíram-lhe bombas em cima. Antes a decisão pelo voto. Que torna o Iraque num país a merecer que se trate imediatamente das condições para a sua desocupação. Soberanamente, sem ditadura e sem invasores. Não de sopetão mas segundo um plano que deve ser supervisionado pelas Nações Unidas.

Naturalmente, no mosaico étnico-religioso iraquiano, a paz não vai estar ao virar da esquina eleitoral. Os ressentimentos entranhados não secam com facilidade. Mas, a longa supremacia sunita, imposta pelo poder de Sadam, tem os dias contados. A maioria xiita e os curdos, contabilizaram-se agora. No fundo, uma recomposição entre maiorias e minorias. E as minorias, devendo conservar os seus direitos como minorias, terão de atender a que o direito de governo compete a quem é maioria. Com regras de convívio, é claro. Ou seja, o contrário do que Sadam fez para com a maioria curdo-xiita. Não vai ser fácil, mas é possível. Pelo menos, existe uma base de vontade eleitoral expressa para legitimar opções de futuro para o país. E eu não posso deixar de me curvar com imenso e sincero respeito perante o longo calvário que o povo iraquiano percorreu para se chegar à boca das urnas.

Sempre tive dúvidas sobre a factibilidade do Iraque como país e que não foi mais que uma construção geométrica do velho império britânico. Ou os três painéis de identidade constroem uma identidade nacional que lhes permita o convívio, ou então melhor será que pacificamente se separem. A verdade é que, em tantos anos de existência, a qualidade de iraquiano sempre foi mais uma forma de dizer que outra coisa. Imposta primeiro pelos britânicos e depois conservada anos a fio pelo clã do Partido Baas. Em que as identidades sunita, xiita e curda em vez de amalgamadas foram reprimidas por força do domínio de uma minoria (e que recebeu essa capacidade de domínio do facto de ter sido sunita a guarda pretoriana e castrense que serviu o aparelho militar otomano). Decidam politicamente, são os meus votos. Substituindo, sempre que possível, o falar das armas pela voz da vontade expressa.
publicado por João Tunes às 16:06
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4 comentários:
De Manuel Correia a 2 de Fevereiro de 2005 às 02:56
João Tunes, subscreveria o teu último parágrafo, de tão bem escrito e sentido que está, mas quanto aos dois parágrafos anteriores tenho duas objecções: 1) não me parece que os iraquianos que participaram nesta plebiscitação cega de um regime vigiado e controlado pelos ocupantes, tenham podido «escolher»; 2) não percebo de que «opções para o futuro do país» estás a falar e atrevo-me a supor que alguns (muitos?) iraquianos também não. Será possível chamar democrático a um processo em que não há informação livre nem possibilidade de debate? Estou a tentar recolher mais informação sobre esta parte do processo iraquiano mas, o que já é público leva-me a crer em mais um erro crasso. Evoca-me aquela cena do filme de Buñuel em que os camponeses antes de serem fuzilados pelas tropas napoleónicas, gritavam «Á bas la liberté». Poder-se-á conceber a democracia sem liberdade?


De Joo a 1 de Fevereiro de 2005 às 23:26
Caro mfc, claro que tudo seria melhor, se ... e se... e se... Só que não foi disso que falei. É bom que discordemos tanto, porque discordar é preciso. É mesmo para discordar que não puxo da pistola quando oiço falar da América. Abraço.


De mfc a 1 de Fevereiro de 2005 às 22:24
É suposto que as eleições sirvam para alguma coisa. É pensável que aqui na Europa se realizassem eleições com o quadro existente no Iraque? Penso que estará de acordo comigo, que seria impensável...
Partindo do princípio que as eleições foram um acontecimento positivo(de que discordo), que possibilidade existe de real efectivação do poder?
Não seria melhor criar essas condições como pressuposto para a sua realização??
Um abraço.


De jose antnio a 1 de Fevereiro de 2005 às 21:05
Abram o olho e vejam o que é a democracia no Iraque. Eles são 14 milhões e nós 10 milhões, a diferença não é grande e a abstenção foi de 30%. Nós somos uma vergonha.


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