Sábado, 29 de Janeiro de 2005

SINDROMA “SEITAS DO MAL” (2)

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Estimado Manuel Correia,

Estás virado para dar-me troco e eu não resisto em espicaçar a tua notável e ágil argumentação (que, em muito, prefigura o tipo de discurso crítico e interrogativo que a esquerda devia fazer entre si, sobretudo para furar bloqueios e ladear as azinhagas das zangas). Interpreta as minhas “alfinetadas” neste sentido – substituir a amostragem de cartões, vício de árbitro que nenhum de nós o é, pelo estímulo em pensar melhor e que, no caso – serve para ti e para mim, oxalá sirva para mais alguém.

Acabado o intróito, a polémica deve continuar. Recomece então.

Percebi os teus argumentos e partilho as preocupações que estão metidas na bainha. Mas creio que não foste equilibrado no peso do bombordo com o estibordo (mesmo parecendo que fizeste alguma marcha à ré neste segundo post relativamente ao primeiro). E julgo que alguns preconceitos perduram.

Há alguma fantasmagoria instalada por aí relativamente à maldição das posições consideradas de direita. A que acresce a diabolização fácil de se espetar o raio do rótulo com uma facilidade demasiado fácil. E foi, por isso, que o PS, por parte da esquerda não socialista, levou e leva na cabeça com este paradoxo – quando fora do governo, mais na leitura imediata dos resultados, contabiliza-se o PS entre as forças de esquerda, mas quando governa, o PS passa ao supremo anátema de partido de esquerda com uma política de direita. E julgo que é exactamente este gosto intra-mórbido com o paradoxo PS que inferioriza a esquerda relativamente à direita (os interesses ajudam, oh se ajudam) – Sá Carneiro, Cavaco Silva, Durão Barroso e Santana Lopes governaram com maiorias sólidas e o PS nunca teve tal oportunidade. E, neste quadro, não restam dúvidas que a esquerda não socialista prefere ser oposição à direita no poder e tem um medo diabólico de ver o PS com capacidade para governar. Porquê? Arrisco a dizer que isso se deve às escapatórias ideológicas, ou seja, à crença na carta na manga da manipulação entre jogo político e jogo social. Porque a verdade é que a esquerda não socialista não aposta todo o seu património no cavalo político da democracia institucional e representativa (governo, parlamento, etc), quando a crença na revolução ( a verdadeira redenção dos trabalhadores, para uns, a dos radicais urbanos e moralistas, para outros) é o verdadeiro palco da mudança (nas manifs, nas performances, nos media). Assim, para o PCP e o BE, a intervenção institucional é pouco mais que uma montra, uma intervenção que (nem pensar!) não substitui a intervenção principal no campo da luta de classes ou da radicalidade das roturas culturais – necessárias ou hedonistas. E é este jogo dúplice que, a meu ver, explica a forma fácil e demagógica como, por um lado, se estigmatiza, e se exagera, com a marca de direita e, por outra banda, se manipula o paradoxo PS e de uma maneira que chega até ao juízo implícito de imbecilizar os seus eleitores (como se estes fossem tontos de esquerda que querem ser governados à direita).

Voltando ao Freitas, afinal o leit-motiv da nossa conversa. Não tenho dados para confirmar ou desmentir o retrato pérfido que traças do homem. Portanto, não sigo o teu caminho de prevenção quanto aos planos que ele terá no bolso quando, agora, aposta no PS. Como não ponho, por ele, as mãos no fogo. Mas julgo que é banal concordar-se com ele quando considera que esta direita (a santanista-portista) trouxe para a política a máxima incompetência e que o País não suporta mais este declive de degradação. O que venha a mais, podendo já estar na calha, dependerá … da esquerda e da direita. Muito menos concordo contigo com o engrandecimento que fazes do homem, num valor próximo do simbólico. E permite que te diga, critério meu, a adesão de Freitas é muito curta, em termos de dimensão e significado político, que outras adesões de outras bandas (a forma como Manuel Alegre está a participar na campanha, não diz nada?). Só a dupla coimbrã Vital Moreira & Gomes Canotilho não chegam e sobram para o contrabalançar? E sossegarem a inquietação da proximidade, no voto, do Seitas do Mal?

Uma última discordância. Por sinal, a mais grave de todas as que julgo nos dividem. Disseste que aceitas que se mude de quase tudo, de partido, de fé, sei lá do que mais e até de Clube. Mudar de Clube? Exagero teu, indignação minha. A mim, ninguém me tira, haja maus ventos ou más marés, o emblema do Barreirense cá do sítio onde ele foi plantado.

Grande abraço.

Adenda:
O Manuel Correia colocou comentário de resposta que julgo ser de puxá-lo para aqui para que o contraditório fique com a mesma visibilidade que a "provocação". E limito-me a transcrever por julgar que as posições (ou apreensões) estão suficientemente claras:

Prezado João Tunes, Começo pelo parte final do teu post: mudar de clube, - nunca! Os remorsos seriam insuportáveis e as nossas tribos respectivas não compreenderiam. Há coisas na vida que não se inserem na ordem do entendimento. Nisso estamos de acordo. Quanto ao resto, nem tanto. As maiorias, preparam-se, negoceiam-se, constroem-se, merecem-se; ganham-se e perdem-se. Já conheces a minha opinião acerca disso. Quanto àquilo a que chamas «escapatórias ideológicas», estou de acordo. Há muito disso, quer no PCP quer no BE. São dados da questão das alianças na política portuguesa. Há que enfrentá-los. Não me parece que, alguma vez, os partidos políticos tenham investido exclusivamente no plano institucional, nem que lhes reste, nos nossos dias, mais do que as instituições para eficazmente exercerem ou condicionarem o poder. As minhas inquietações são comuns a outras que vão surgindo entre socialistas (o 2º artigo do André Freire, hoje, no PÚBLICO, ou as tímidas recomendações do Gomes Canotilho, são dois, entre muitos, exemplos disso). Quanto à eficácia que os homens vindos da esquerda têm no PS, - ai deus i u é - recordo-te a triste saga de José Barros Moura, após se demitir da presidência da Assembleia Municipal de Felgueiras; Vital Moreira a abandonar a Comissão de Revisão Constitucional, justamente indignado, para além de não se ter ficado a perceber muito bem porque não foi ele o cabeça de lista por Coimbra; e o meu camarada de Blogue, Raimundo Narciso. Imaginas a influência que eles têm no PS? Eu acho que é muito pouca. É claro que Zita Seabra também não tem muita influência no PPD-PSD, nem Celeste Cardona no CDS-PP, mas, pronto, sempre me pareceu que é mais difícil a direita entusiasmar-se com os trânsfugas da esquerda... Quanto ao Freitas do Amaral, acho que já disse tudo o que pensava. O acolhimento caloroso dos democratas cristãos no PS é compreensível. Todavia, quem o compreender será convidado a compreender também aquilo que há a descontar no capítulo das «escapadelas ideológicas». O BE ficou radiante; o PCP finge que se trata de mais uma das suas profecias; e o CDS-PP vai promover o seu produto «direita à séria» contra « tutti fruti». Achas mesmo que o Freitas do Amaral se vai contentar com um modesto lugar numa qualquer secção do PS? Um abraço.
publicado por João Tunes às 17:25
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1 comentário:
De Manuel Correia a 30 de Janeiro de 2005 às 17:50
Prezado João Tunes,

Começo pelo parte final do teu post: mudar de clube, - nunca! Os remorsos seriam insuportáveis e as nossas tribos respectivas não compreenderiam. Há coisas na vida que não se inserem na ordem do entendimento. Nisso estamos de acordo.

Quanto ao resto, nem tanto.

As maiorias, preparam-se, negoceiam-se, constroem-se, merecem-se; ganham-se e perdem-se. Já conheces a minha opinião acerca disso.
Quanto àquilo a que chamas «escapatórias ideológicas», estou de acordo. Há muito disso, quer no PCP quer no BE. São dados da questão das alianças na política portuguesa. Há que enfrentá-los.

Não me parece que, alguma vez, os partidos políticos tenham investido exclusivamente no plano institucional, nem que lhes reste, nos nossos dias, mais do que as instituições para eficazmente exercerem ou condicionarem o poder.

As minhas inquietações são comuns a outras que vão surgindo entre socialistas (o 2º artigo do André Freire, hoje, no PÚBLICO, ou as tímidas recomendações do Gomes Canotilho, são dois, entre muitos, exemplos disso).

Quanto à eficácia que os homens vindos da esquerda têm no PS, - ai deus i u é - recordo-te a triste saga de José Barros Moura, após se demitir da presidência da Assembleia Municipal de Felgueiras; Vital Moreira a abandonar a Comissão de Revisão Constitucional, justamente indignado, para além de não se ter ficado a perceber muito bem porque não foi ele o cabeça de lista por Coimbra; e o meu camarada de Blogue, Raimundo Narciso.
Imaginas a influência que eles têm no PS?
Eu acho que é muito pouca.

É claro que Zita Seabra também não tem muita influência no PPD-PSD, nem Celeste Cardona no CDS-PP, mas, pronto, sempre me pareceu que é mais difícil a direita entusiasmar-se com os trânsfugas da esquerda...

Quanto ao Freitas do Amaral, acho que já disse tudo o que pensava. O acolhimento caloroso dos democratas cristãos no PS é compreensível. Todavia, quem o compreender será convidado a compreender também aquilo que há a descontar no capítulo das «escapadelas ideológicas».
O BE ficou radiante; o PCP finge que se trata de mais uma das suas profecias; e o CDS-PP vai promover o seu produto «direita à séria» contra « tutti fruti».

Achas mesmo que o Freitas do Amaral se vai contentar com um modesto lugar numa qualquer secção do PS?

Um abraço.


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