Sábado, 29 de Janeiro de 2005

SINDROMA “SEITAS DO MAL” (1)

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Leio isto:

“Há apoios que não honram, não dignificam, nem estimulam. Podem parecer muito vantajosos de imediato, mas pensando melhor, tiram votos, perturbam identidades e inibem entusiasmos.”

Foi aqui, saído do teclado do estimadíssimo Manuel Correia. E, sinceramente, não consigo entender.

No caso, Manuel Correia falava da declaração de voto de Freitas do Amaral no PS e a reacção entusiasta de Sócrates. Mas prefiro pensar na frase, num sentido mais lato. Ou seja, o princípio de julgamento da atitude (mudança de voto) e dos seus efeitos. E, por aí fora, ligo esta frase ao linguajar do “senso comum” que se ouve por aí sobre a adoração do valor da coerência para os que nunca mudam, nascendo e morrendo com as mesmas crenças e pertenças.

Uma coerência que assenta no mesmo engajamento não necessita de duas afinidades - do indivíduo para com o grupo e a do grupo para com o indivíduo? E se ela (a afinidade) se quebra, não é lógico que resulte uma de duas coisas – ou o indivíduo dá de frosques e salta do grupo, ou o grupo expele o dissonante (e, em muitos casos, as dinâmicas até se sobrepõem)? Qualquer destas definições/resoluções não são actos de coerência? Em caso de disfunção entre o indivíduo e o grupo (ou mesmo com a convicção), coerente não é o que muda ou mandar embora porque se está a mais? Chamar coerência à inércia de não mudar, porque ali se plantaram raízes, não é prémio à preguiça, ao comodismo ou mesmo à cobardia política?

Pela minha parte, não julgo as mudanças dos que vêm ter à minha beira política. Apenas porque não posso exigir o mesmo percurso que o meu a quem quer que seja. Como não tenho que pedir licença pelos sítios políticos onde vou poisando. Uma consonância política é um momento, um ponto de encontro de vontades e de opiniões. Nunca um casamento com ameaça de trauma de eventual divórcio. Pensar assim, parece-me uma visão matrimonial da política e do voto. Numa exigência de comunhão que só pode ser uma limitação à liberdade de consciência de cada um.

Se se fosse medir todas as companhias numa qualquer opção, não havia lugar para nos sentarmos, mesmo que a companhia se resuma ao breve instante do exercício do voto. Não há partido em que não haja, pelo menos, um indivíduo a quem não gostaríamos sequer de dar os bons dias. E nem o voto branco, voto nulo ou abstenção nos salvariam. Até nestas opções, há gente pouco recomendável.

Caro Manuel Correia, em que é que é menos “honroso”, menos “dignificante” e menos “estimulante” a trajectória de Freitas do Amaral relativamente à de Vital Moreira ou de outros que, por exemplo, andaram pelo maoísmo, para chegarem ao voto no PS e apelarem a ele? (Lembro que Zita Seabra também se encontrou, no PSD, com antigos adversários) E não é naturalíssimo que qualquer partido se entusiasme por verificar que tem poder de atracção abrangente com poder de captação de vária gente que caminha desde a outra esquerda mais uns tantos que vêm da direita? Se um estalinista aprende o suficiente para sacudir a sarna (por “coerência”, nunca a deveria sacudir?), ou um direitista se desilude com a prática da direita no poder (devia morrer “facho?), por caminhos distintos de coerência, eles não se podem encontrar num ponto de encontro, sem a aversão recíproca ao pecado original do outro?

E, no entanto, natural parece-me que os “grupos de abandono” se queixem por gáudio de exemplo para se justificarem, para dentro de casa, sobre o fenómeno das “folhas secas”. Para limitarem os estragos do efeito do exemplo. Estão no seu papel. E Paulo Portas, fez o seu ao dizer o que disse de Freitas do Amaral (em tempos que já lá vão, eu e a minha malta chamávamos-lhe o “Seitas do Mal”). Como Jerónimo chamou “depósito de adidos” ao Bloco por este albergar “renovadores”. Agora esperar que, quem recebe, não dê as boas vindas aos trânsfugas que lhe batem à porta, é exigência que está, pelo menos, bem acima mas fora da política.

Outra questão, ainda, tem a ver com os “locais de encontro” dos trânsfugas. Uns mais marcados que outros. Gostava de assistir, se tal fosse possível, ao comício de boas-vindas que o PCP não faria se o Manuel Alegre, ou o Manuel Carrilho, ou o Raimundo Narciso, ou o Mário Lino, ou o Pina Moura, por absurdo, lhes dessem na bolha rasgarem os cartões do PS e pedissem fichas de inscrição (alguns, de reinscrição) na Soeiro Pereira Gomes. Ou um sindicalista dos TSD. A segurança ia-lhes impedir a entrada? O problema, aqui, não será que há partidos que apresentam portas de entrada e de saída e outros que só têm uma - a que vai direita à rua? É esta a medida da coerência: andar na política como numa rua de sentido único e, quando se calha numa rotunda, andar ás voltas e ás voltas e sem de lá se sair?

Aqui ficam umas tantas questões penduradas na espera do contraditório. Se tanto merecer.

Nota amiga: Oh Manuel Correia, tens mil boas razões para não votares PS (até já falámos em várias delas), mas conto que escolhas uma melhor que a repugnância pela companhia do voto do Freitas. Aquele abraço.
publicado por João Tunes às 00:42
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3 comentários:
De Werewolf a 29 de Janeiro de 2005 às 10:38
Já agora acrescento que eu não vou votar PS, mas não é por causa do Freitas, mas pelo PS em si e pelos seus principais dirigentes. Quanto ao Freitas do Amaral até tenho apreciado o seu percurso, ou evolução, no nosso leque político-partidário.
Ainda me lembro quando fui obrigado a escolher entre Soares e Freitas (o bem e o mal, que coisa tão estúpida!), hoje não escolhia nenhum, mas as conjunturas mudam, as pessoas mudam e... quando um homem sonha o mundo pula e avança. Freitas talvez tenha sonhado e não ficou agarrado a dogmas, mesmo continuando, como diz, democrata-cristão. Eu, que sou ateu, não vejo qualquer contradição, nem tenho qualquer preconceito em relação às opções religiosas de cada um. Não há nenhum partido político português (que eu saiba, porque tenho dúvidas em relação ao PP) que imponha aos seus militantes serem da religião A ou B, serem crentes, agnósticos ou ateus.
Abraço João


De Werewolf a 29 de Janeiro de 2005 às 10:26
Bravo João, muito bem tratado este tema. Já dizia o meu pai "só os burros é que não mudam", com o devido respeito aos burros.


De Manuel Correia a 29 de Janeiro de 2005 às 01:46
João Tunes,
não abordei a questão «Seitas do Mal apoia o PS» na perspectiva da «coerência». Todavia, vou acrescentar, com muito prazer, algumas ideias em próximo post. Fico-te grato pela atenção.
Um abraço


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