Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2005

CAMPOS DO MAL ABSOLUTO (1)

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Fui parar a um elucidativo diálogo na caixa de comentários do Lutz que mostra como ainda é complicado, e a esta distância, entender a culpa pela forma como se descamba, de vez em vez, em actos de mal absoluto. Tomo a liberdade de transcrever esta conversa de vizinhos dado que ela está metida na “cave” de um blogue, com mérito para subir à praça (acompanhado do devido pedido de desculpa pela bisbilhotice):

Lutz:
“No Água Lisa. O João Tunes lembra o sexagésimo aniversário da libertação dos campos de concentração alemães. E outros campos. E fala da vergonha que ele sentiu em sua face, que é a minha e a de todos nós. Faz-me bem ver-me acompanhado nesta vergonha por ele e por outros que a sentem também, essa nossa vergonha enquanto humanos que sentimos para aqueles que deviam senti-la mas não a sentem...”
O Raio:
“Os campos de extermínio alemães não têm nada a ver com o povo alemão. Tal como os do Cambodja não tiveram nada a ver com o Cambodja. Campos de extermínio e outras brutalidades são provenientes de circunstâncias concretas e independentes dos povos onde ocorreram.
Também em 1936, na Guerra de Espanha se dizimaram milhares e milhares de perssoas e isso também não tem nada a ver com os espanhóis. Mais uma vez são as circunstâncias, " a ocasião faz o ladrão".
Actualmente em que, com a União Europeia, se tenta repetir, agora à escala continental, o processo de unificação alemã de 1870 estamos a abrir novamente as portas à barbarie. Não nos esqueçamos que aquele processo esteve na origem de três guerras (uma no Século XIX e duas no XX). Repeti-lo é a loucura completa.”

Lutz:
“Discordo, Raio: Os campos de extermínio nazi têm tudo a ver com o povo alemão! Foi ele que permitiu a chegada ao poder dos nazis, foi ele que desviou os olhos quando estas bestialidades foram cometidas.
Se quiseste dizer que não há nada que geneticamente dispõe o povo alemão para esses crimes, mais do que outro povo qualquer, concordo. Também não defendo a culpabilização colectiva. Cada indivíduo, membro do povo, tem a sua culpa individual, na medida do seu envolvimento, da sua cobardia, ou não a tem, por ter sido legitimamente irresponsável - por exemplo como criança - ou por ter resistido.
Agora como isto aconteceu na Alemanha, e não noutro país, o povo alemão tem uma responsabilidade acrescida de ser vigilante. E como Alemanha também é um estado, que continua a existir, com relações, direitos e deveres internacionais, herdadas dos estados alemães anteriores, tem que assumir a responsabilidade deste passado também...
O que não me parece fazer sentido, é deduzir os campos de extermínio da unificação alemã de 1870. Isto é, peço desculpa, um perfeito disparate, tal como as analogias para uma eventual unificação europeia!”

O Raio:
“Extermínios houve no Cambodja, Espanha, Ruanda, Jugoslávia, China (da autoria dos japoneses), Turquia (arménios), Congo (belgas), etc., etc.
Se a ocasião for propícia podem existir extermínios em qualquer lado.
A forma como foi feita a unificação alemã foi um caldo de cultura para o imperialismo que conduziu ao nazismo e ao extermínio.
Existem óbvios paralelos históricos entre a unificação alemã do Século XIX e a formação da União Europeia.
Só isto devia-nos levar a estar vigilantes. O perigo não vem da Alemanha, o perigo vem da União europeia, império multinacional em formação.”

Renegade:
“Bom, tudo isso parte de pressupostos essencialistas e unicitários sobre os "alemães" e os "espanhóis". O "povo alemão" é uma realidade tão concreta e descritiva como o povo hobbit do Tolkien. Ou seja, é errado usar isso para tentar perceber o holocausto.
Eu fui a Auschwitz e acho que é uma experiência duríssima e salutar ao mesmo tempo. O confronto com o horror é uma grande escola humanista.”

Lutz:
“O conceito do povo é, de facto, muito problemático para compreender o holocausto. Mas queiramos quer não, ele tem relevância, porque existe. Se um grupo de pessoas se acha pertencente a um povo, este povo existe. E há muito mais do que o simples sentimento de pertença. Outra coisa é entender povos como sujeitos e agentes históricos: O povo quer, o povo faz...
Interessante no caso do holocausto é ainda que muitos alemães acabaram por morrer em Auschwitz porque outros alemães entenderam que eles não pertenciam ao povo alemão, mas ao judeu, um facto que para eles já tinha perdido qualquer significado, antes de este lhes ter sido lembrado tão drasticamente.”

Putz:
“Por essa lógica, Lutz, acho que um povo que se permite viver sob um regime autoritário com laivos de fascismo durante 48 anos deve ser porque somos todos neo-fascistas de esquerda centro e direita, não?”
Lutz:
“Claro que não todos, "Putz", e em termos de culpa qualquer indivíduo naturalmente só é responsável pelos seu próprios actos, mas se um povo é um grupo de pessoas, que partilham um sentimento de pertença, e ainda um conjunto de referências históricas, culturais, língua, e também valores - estes últimos naturalmente num espectro muito heterogéneo -, se isto é um povo, como entendo que é, e se verifico que este povo vive muitos anos sob um regime ditatorial não imposto por fora, então este regime e o povo tem algo a ver um com o outro.”
publicado por João Tunes às 12:40
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