Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2005

BUCHENWALD E MAIS

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1980. Viagem em turismo campista, dois casais num Fiat 127, tenda na mala, lonjura maior na então RDA. Entrada por Dresden na fronteira checo-alemã. Já noite cerrada, porque fomos afastados da fila, a matrícula do carro denunciava país da NATO, sujeitos a seca condizente. Lógico. Cidade adormecida, prédios altos em néon de cima abaixo, não à Coca Cola, mas sim um luminoso Viva o Marxismo-Leninismo. Seria estar em casa se aquela malta fosse minimamente simpática, ou minimamente afável, que não era o caso. A grande luta Este-Oeste estava ali. Não dava para sorrir quanto mais para agradar. Lógico.

Conhecida Dresden, caminho para Weimar. Objectivo Buchenwald. Sim, um Campo. Melhor dizendo, O Campo. Porque, antes de servir para matar judeus, foi dos primeiros a abrir e antes de começar a matança de judeus. Buchenwald foi um Campo aberto cedo e para matar alemães – alemães comunistas, socialistas e alguns liberais. Ali, a ofender Goethe e a lançar fel sobre a memória da República de Weimar (segundo a caricatura que, sobre a democracia alemã, lançaram todos os extremismos em combate contra a solvência do sistema parlamentar). Só depois de liquidados todos os patrícios incapazes de integrarem a unidade nazi, Buchenwald sobrou para os judeus. Muitos deles com a infeliz ilusão atravessada de que os nazis se ficavam pela luta de classes e ela os ia ocupar tanto que não teriam tempo para travar a sua luta maior – a luta rácica. Mas tiveram. Chegaram e sobraram para comunistas, socialistas, liberais, ciganos, homossexuais, eslavos, judeus e outros mais. Judeus haviam mais, judeus morreram mais, judeus deram mais nas vistas. Lógico.

Os Campos não foram um exclusivo judeu. Digo-o por mero rigor e sem nada tirar ao peso da tragédia ao Holocausto. Até porque me parece mais lógico, na lógica da demência, que um comunista fosse odiado até à morte por um Barão Nazi porque o ameaçava com a ditadura vermelha que um judeu rico que apenas o incomodaria, esteticamente, com a diferença no desenho do nariz. Mas não, viu-se que o ódio nazi era cego, com prioridades, mas cego. E insaciável. Mortos os comunistas alemães, morreriam os judeus alemães ou não alemães. Depois, se a matança não fosse parada, morreriam os não alemães, até voltarem a matar alemães.

Mas Buchenwald foi Campo construído para matar alemães. Depois matou o que calhava. Talvez porque, como alguém disse, matar é sempre mais fácil que morrer. Em Buchenwald vi uma fábrica da morte. E chorei. Só podia chorar pela vergonha da minha condição humana. Porque não consegui afastar a ideia horrível de que os nazis tinham sido homens como eu. Não consegui passá-los à condição de bestas. Esse o meu problema.

Visitei o Campo numa sensação de dor humana que só repeti quando percorri, vinte anos depois, as ruínas do salazarista Campo do Tarrafal na Ilha de Santiago em Cabo Verde, onde constatei as semelhanças adaptadas a uma escala pequena – a da pequenez da nossa dimensão. Que não em sadismo. O modelo era o mesmo, porque a inspiração não mudava. O objectivo também – a aniquilação da qualidade humana, o extermínio pelo acaso do sadismo ou da resistência do prisioneiro. E, no Tarrafal, voltei a chorar. Lembrando que os pides eram portugueses como eu e, mesmo assim, tão meus estrangeiros como os nazis alemães de que lhes vi o resto da obra em Buchenwald. E, mais estrangeiros (na condição) e mais sádicos com quem lhes caía nas mãos. Fossem resistentes à ditadura (a primeira vaga), fossem africanos com vontades de independência e que penaram uma reedição sofisticada em sofrimento desde o início da guerra colonial até 1974. Onde vi os vestígios do que os pides portugueses fizeram a angolanos, moçambicanos, guineenses, caboverdianos, sãotomenses. Para quê? Para que os colonialistas continuassem coloniais. Talvez na proporção de um preso africano, reduzido ao fim da escala humana, por cada menino e menina de pele branca a estudar nos liceus de Luanda, Lourenço Marques, Huambo e Beira.

Faz sessenta anos que os campos de concentração nazi foram fechados. Que o mundo incrédulo soube o que supunha não ser possível existir. A nuvem foi afastada, o mundo sossegou. Sem cuidar de saber que o pesadelo do sadismo (o sadismo terá fim?) ia continuar. O Gulag já havia e continuou até 1953. Buchenwald continuou a ser usado pelos soviéticos para outro tipo de prisioneiros. Tarrafal, a vergonha portuguesa, durou até 1974 (como São Nicolau e Machava). As máquinas da morte custam a acabar. É.
publicado por João Tunes às 23:53
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7 comentários:
De Lutz a 27 de Janeiro de 2005 às 10:28
Caro Manuel Correia,
obrigado pela informação. Fico enojado, mais ainda, porque acabei de perceber que o remédio, que tinha imaginado, ou seja publicitar o facto vergonhoso, não teria o efeito contrário do que o pretendido, isto é, melhor negócio para o hotel ainda.
Vou ver se encontro a página (ainda não encontrei a própria página do hotel), e se encontro algum indício de públicidade com o "Führer" nela, mandarei pelo menos uma queixa ao hotel mesmo e à câmara de Weimar.
Cumprimentos envergonhados,
Lutz


De Manuel Correia a 27 de Janeiro de 2005 às 01:55
Meu caro Lutz,
A ascensão política e eleitoral de Hitler está ligada a Weimar, por via da malograda República do mesmo nome. Quando Hitler ia a Weimar, ficava no Hotel Elefante (anteriormente chamado Elefante Branco, ao que parece). O Hotel foi, mais tarde, reconstruído pelo poder nazi (correu que Hitler deu instruções precisas a esse respeito). O Furher proferiu alguns discursos de uma varanda do mesmo hotel, para a praça fronteira.Há fotos, filmes e gravações várias a esse respeito. Bem vê, a história da suite «eternamente» reservada para o furher (já) não «espanta» muito. Eu é que não a conhecia. Há alemães em Weimar que continuam a venerar aquele que associam, com uma nostalgia horripilante, à queda do império germânico, ao declínio da supremacia ariana, etc. Mas, como sabemos, saudosistas há-os em todo o lado. Se telefonar para o Hotel Elephant ou consultar a respectiva página de reservas na WWW, verá que a preferência de Hitler continua a ser assinalada como uma distinção importante e de carácter descaradamente promocional.
Se, por absurdo, for a Weimar, entrar no Hotel Elephant e perguntar se pode reservar a suite «eternamente» reservada ao furher, o recepcionista, como calcula, estará a par de que Hitler não virá nunca mais. Se insistir, pode ser que consiga a tal suite por uma tarifa mais alta. Ossos do ofício, e do turismo.
A mais ou menos 5 ou 6 Km de Weimar, no Campo de Concentração de Buchenwald (que o nosso anfitrião visitou e refere no post que desencadeou a nossa conversa), a polícia tem de apagar, de vez em quando, inscrições de bandos neo-nazis.
Cordialmente


De mfc a 26 de Janeiro de 2005 às 02:08
Estive no Struthoff na Alsácia e em Dachau.
É difícil imaginar a bestialidade humana levada a tal grau.
Mas aconteceu!É...


De IO a 25 de Janeiro de 2005 às 22:07
TOTALMENTE de acordo com o Lutz!


De Lutz a 25 de Janeiro de 2005 às 19:26
Manuel Correia:
Estou chocado! Onde? Se isto for verdade, e não um malentendido seu - desculpe-lá que coloco essa hipótese, mas parece-me tão incrível - então isso tem que ser dito bem alto e fazer escândalo!
Um Hotel? É preciso denunciá-lo!


De Manuel Correia a 25 de Janeiro de 2005 às 19:06
João Tunes,
Obrigado por nos vires recordar o que não deve ser esquecido. Lembro-me que, ao lado e em baixo, numa das capitais da cultura alemã, havia quem fizesse por não ver... Quando lá fui, em 1999 (Capital Europeia da Cultura) havia «ainda» uma suite reservada para o Adolfo. Fiquei estupefacto. O que eu tinha ainda para aprender...
Um abraço


De IO a 25 de Janeiro de 2005 às 00:27
"Ali, onde tu choraste, qualquer um chorava"! _ muito obrigada por este 'post'!, claro que sabia que o campo tinha mais passado: matou-se antes, durante e 'depois'... mas lê-lo, agora, foi ríquissimo! Um beijo, Isabella.


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