Terça-feira, 18 de Janeiro de 2005

AS COISAS DO DIABO

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Apesar das décadas de democracia, continuamos a usar uma cultura de esquerda que foi caldeada, longa, tenaz e arduamente, nos tempos da resistência. Grande parte dos reflexos e das referências bebem numa tradição estruturada na afirmação do marxismo e na expressão neo-realista. Por muito que não se queira. Porque aí estão as raízes e porque a esquerda continua a viver a orfandade de não se rever no poder, por fora, resistindo à direita democrática (onde se inclui o PS quando governo, pois claro), em réplicas sucessivas do património cultural antifascista.

Importa, portanto, entender como é que é esta cultura de herança se fez e se sedimentou. Que é uma forma de nos entendermos como esquerda e caminho necessário para sairmos dos seus becos.

As décadas de trinta e de quarenta do século passado, foram quer a ossificação do fascismo português, também no seu acabamento ideológico e cultural, como a etapa da construção de uma cultura de resistência e de adaptação dos ventos culturais europeus (sobretudo a soprarem de França). Com Hitler no poder, os fascismos nacionais adquiriram um poderoso suporte de sustentação e pensaram-se irreversíveis. Contra Hitler e os fascismos, as forças democráticas apostaram na sua vantagem cultural e emergiu a afirmação dicotómica que levou tanto intelectual e artista a abraçar o credo marxista que implicava, nas letras e nas artes, trazer o povo para o lugar de personagem central.

Em Portugal, a enorme corrente de desforra cultural contra o fascismo (que culminaria no neo-realismo) desenvolveu-se sobretudo à volta de jornais e revistas que funcionavam como focos guerrilheiros. Dos títulos mais conhecidos, ressaltam os nomes da Seara Nova, do Diabo e do Sol Nascente. Entre todos, o mais marcante no parto de transição cultural entre a herança do republicanismo liberal e a geração marxista, terá sido, julgo, o Diabo (que durou entre 1934 e 1940). Foi um processo de acesas polémicas internas e, claro, de profundo conflito com o regime e a censura. Até que foi tratado como caso de polícia que nunca deixou de ser. E, lendo-o a esta distância, o Diabo mostra bem como o fascismo, ao matar a cultura atribuindo-lhe a maldade genética da subversão, encerrou também a cultura de resistência numa redoma de desenvolvimento pela subjugação da criação artística e literária à praxis da denúncia política do fascismo.

Um livro riquíssimo, magistralmente escrito (pelo rigor, pela diversidade de
ângulos e pelo método), da autoria do professor e historiador Luis Trindade, permite-nos entender, através da história ideológica do Diabo (*), o essencial sobre o parto e as querelas que animaram e enformaram a cultura antifascista, afinal a matriz da cultura de esquerda que vai sobrando. Ou seja, este livro é uma forma de nos entendermos. Os de esquerda, porque estamos lá (na infância do nosso esqueleto cultural) com mais umas derivas importadas que vieram ajudar à festa depois de 1968. Os de direita, porque bem saberão que, para além das importações neo-liberais que somaram, também já ali moravam embora no lado contrário da barricada.


(*) – “O Espírito do Diabo”, Luís Trindade, Edição Campo das Letras - colecção Cultura Portuguesa.
publicado por João Tunes às 18:30
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