Terça-feira, 11 de Janeiro de 2005

A DON JORGE, POR LA TARDE

Toros-35[1].jpg

Está um frio de rachar. Para todos, mesmo para os animais da nossa admiração. Incluindo aqueles de que alguns nos julgam, por os cultivarmos, que somos sádicos e bárbaros para com eles. E falo dos Senhoritos e das Senhoritas que usam mala, cinto, carteira e sapato de pele de animal, comem peixe morto por asfixia ou com anzol espetado na boca, e aceitam, na tradição do bom povo, que o porco seja morto a guinchar, para sangrar, com faca de ponta bem afiada. Falo dos que não entendem que supremo crime é ter peixe com mar de aquário, pássaro com voos aprisionados em guantanamos feitos de gaiolas de arame, são capazes de caparem felinos de trazer por casa para lhes matarem nobres cios. Falo dos que, provavelmente, são os mesmos e as mesmas que soltam moedas nos peditórios para desgraças longe porque impressionou muito os turistas brancos como nós que se afogaram, não sabem onde fica Darfur, acharam a descolonização um crime porque entregou o que era nosso aos pretos que não se sabem governar como se os ladrões de lá não tivessem aprendido com os ladrões de cá, viram as costas à exclusão social dos humanos abaixo do Sahara e aqui mesmo ao nosso lado. Falo da gente que suporta tudo, com uma enorme capacidade de virar cara ao que incomoda, mas não suporta que, numa arena, se meçam nobrezas humanas com as bravas, convidando a que aconteça arte na luta.

Este post devia ser pessoal e, não sei como, veio cair aqui (a porcaria deste PC está ficar demasiado correia de transmissão dos meus afectos, tenho de lhe mandar tirar o vírus). Ele destinava-se apenas ao meu querido amigo Don Jorge. Que hoje chega à 50ª faena. Com vigor, temple e algum desplante (que se lhe perdoa, por arroubo de juventude). Homem de liberdade e que merece traje de luces na forma como lida com a dignidade. Homem de palavra, em todos os sentidos – na dada (jurada ou não) e na escrita. Pena é que use e abuse dos derechazos ao passear o seu capote ao serviço dos señoritos do apoderado Manelito. Mas não se pode exigir a perfeição, nem ao Matador de nossa estima. E, sabe-se, eles têm sempre as suas superstições para iludir o engano do jogo entre vida e morte. Que é, sabemos nós, sabe-o Jorge Semprún, como souberam Orson Welles, Hemingway e Picasso, apenas um jogo de amor. Porque só uma alma de artista entende que é preciso amar muito para saber matar (não só matar, repito: saber matar) por amor. E com respeito. Melhor, com o supremo dos respeitos: o saber matar através de provas na arte de enganar o medo.

Grande abraço, amigo Jorge. Folga hoje, orelhas e rabo estão-te guardadas. Porque as mereces.
publicado por João Tunes às 15:55
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