Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2005

O CÂMBIO

Natal_Londres 292.jpg

O Amílcar é a modos que meu patrício. Diz-se de Mirandela, o que arrogo confirmar pelo sotaque e pelos modos.

Foi ele que nos topou, apanhando-nos a conversa que aproveitou para intrometer um talk brake no seu serviço de limpeza dos passeios da Oxford Street.

Desbobina as suas canseiras de dezoito anos de migrante londrino. O que penou nos tantos anos a três trabalhos das sete à uma da matina – limpeza, fábrica, restaurante. Um desatino que desaguou nas casas que são suas, uma em Mirandela e outra em Palmela. Agora, casas acabadas, o Amílcar abrandou a faina que reduziu a uma única ocupação de limpeza de ruas, paga a seis libras à hora. Não gosta de Londres nem dos ingleses. A mulher é que o vai prendendo por lá, porque está feita a isto. Garante que os filhos hão-de estudar em terra lusa. Tudo está caro, muito caro. O que vale é a cotação da libra face ao euro, bom para a poupança. O clima é uma tristeza, mesmo quando dá um arzinho de sol, tarda nada, chove a potes. Chove de mais. A única coisa boa dali, segundo o Amílcar, é o câmbio da libra.

Vem à fala o Benfica, o nosso Benfica. Mais o Mourinho. Do clube, dá-me a novidade esperançada do regresso do Roger. Faz-nos falta, diz ele, num remate sem defesa. Sobre o Mourinho, promete que ele se vai espalhar na segunda volta. Aqui, cinco pontos de avanço não é nada, não é como lá, as equipas são todas muito equilibradas, garante, suponho que por vontade projectada que o patrício de sucesso trambolhe lá do pedestal azul pago pelo russo rico.

Pergunta-nos o que fazemos por ali, plantados num passeio da Oxford Street. Explicamos. Pergunta se temos família por lá. Dizemos que não, somos turistas, estamos em hotel. O semblante do Amílcar muda de figura. O olhar veste o véu da distância. Suponho que faça as contas de euros para libras. Fosse pelo que fosse, evaporaram-se, num instante, as cumplicidades frescas como patrício e como benfiquista. É a vida.

Tarda nada é capaz de chover. Como disse o Amílcar que, entretanto, voltou ao ganho de libras a manter limpa a Oxford Street.
publicado por João Tunes às 00:23
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3 comentários:
De TH a 3 de Janeiro de 2005 às 09:54
E o cambio dos sentimentos, existe? existe, mas é a bolsa de valores mais flutuante e triste do planeta!TH


De mfc a 3 de Janeiro de 2005 às 02:08
São as castas que, lá longe nas Índias, esconjuramos. Elas existem... há barreiras, que só o Benfica esmorece!


De Carlos a 3 de Janeiro de 2005 às 01:27
Pois é, "o olhar veste o véu da distância". A estranheza por contrariar-se o designío genético de cambiarem-se as relações, esta nossa mania de que a fronteira só se cruza para ir à bola ou de vassoura na mão... diria que faz falta um câmbio de mentalidade onde "o olhar NÂO veste o véu da distância" quando se encontram outras formas de olhar o viver, para além do câmbio e das casas em Palmela. E desculpe o desabafo, João. É que imagino o Amílcar cá, reformado e na sua casa, então a maldizer o seu quotidiano e a loar aos tempos passados na limpeza dos passeios de Oxford Street, ao câmbio, ao Mourinho.


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