Sábado, 11 de Dezembro de 2004

UMA LEITURA A DOIS OLHARES

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Aqui há tempos, dediquei um post ao último e magnífico romance de Jorge Semprún (“Vinte anos e um dia”, Edições ASA) em que resumi assim o sentimento mais forte que me saltou do livro:

“A morte é a grande paixão espanhola, já se sabia. Antes e depois do amor.”

A Teresa fala assim do mesmo livro:

“A perfídia, eis o que me marcou no livro. A que comanda o ritual da encenação daquela morte, ano após ano. Vinte. Para que os vencidos não esqueçam. Ou, e perguntei-o mais do que uma vez, os vencidos obedecem porque, tal como à viúva, na sua relação com o senhor dos vencidos, também a repulsa é capaz de entregar prazer?
Ainda que a acção se passe apenas numa herdade, La Maestranza, Espanha _ onde, escrevi-o há dias, ninguém larga a praça sem que o touro esteja morto _, está inteira neste livro, porque tudo e todos lá estão no estado superlativo dos sentidos. Na violência dos segredos. Na(s) carne(s), ao rubro. Inimigos e Amantes. Cúmplices, nos medos, nos ódios, na perversidade (ou por causa dela?).”


E não posso deixar de concordar com a Teresa. Sublinhando apenas que, com o hábito hispânico de se misturar amor e morte, só podia sobrar perfídia. Isso mesmo. Mas, diga-se, uma perfídia especial, aquela que não amesquinha nem se amesquinha. Porque apenas dura como fonte de prazer. Passado este, a natureza (a humana e a das coisas) volta à ordem estabelecida, com os excessos remetidos à função de se acumularem até voltarem a ferver. E, na maior parte das vezes, fervem dentro de uma arena.

No meu post disse então e revejo agora (depois do contributo da Teresa): Gonzalez (talvez mais o seu desgraçado alter ego – esse sacana do Alfonso Guerra, o Jorge Coelho lá do sítio e em versão mais aparelhística), Aznar e Zapatero começaram, continuaram e continuam a mesma e homérica obra – normalizar os espanhóis, fazendo-lhes crescer a barriga e encurtando-lhes o sonho, a paixão e a atracção pelo excesso. Tirando-lhes esses prazeres hedonistas pelo amor, pela morte e … pela perfídia (no prazer). Então, quando o conseguirem, decerto que a Espanha estará melhor, os espanhóis também, os portugueses idem porque passamos a ter o outro condómino da Península mais sossegado de entretido que esteja a contar os euros (alguns deles obtidos a venderem-nos gasolina, extractos bancários, sanitários, roupas e mobílias), mas definitivamente menos interessante. Porque uma Espanha mais europeia será mais banal, deixará de ser pomo de discórdia e de indignação, o que é óptimo para a construção europeia ou lá o que é, mas tornará Espanha aborrecidamente parecida com o Luxemburgo. Uma Espanha menos encharcada de padres (o que é óptimo) mas (desgraçadamente) com menos toureiros e sem hipóteses de voltar a ter um novo Dominguín. Julgo que seja desta Espanha a perder-se que Semprún nos fala, para que a memória registe antes que se apague. É que, estimada Teresa, La Maestranza é, de facto, o nome da herdade onde o romance de Semprún se desenrola, mas é também nome de Catedral de los Toros (bem pertinho de nós, ali, em Sevilha). E uma e outra La Maestranza têm os dias contados. Então, Espanha será sítio para nela se fazer escala ou nela fazer negócios (a comprar, está bem de ver), visitar museus, comprar livros sem paixões dentro, com uma serenidade perfidamente desinteressante. Aproveite-se, enquanto é tempo.

Obrigado Teresa, por me teres ajudado a reler (re-sentindo) Jorge Semprún.
publicado por João Tunes às 15:53
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1 comentário:
De IO a 11 de Dezembro de 2004 às 18:49
Paradoxo ou não, a verdade é que o que apaixona, no país vizinho, é a intensidade da cor com que eles se dão, se matam, se amam _ sem meios tons. Não, as várias espanhas não cabem em sacos de plástico! _ Abraço, IO.


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