Terça-feira, 7 de Dezembro de 2004

ESQUERDA E CUBA

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O Evaristo insurgiu-se contra o bate-papo com a Lolita a propósito de Cuba e de Fidel e lavrou reparo e sentença:

“Na blogosfera assisto a uma discussão brava sobre o "Comandante Fidel". Se a discussão fôsse na "ala direita" ou nos "social-liberais", não faria aqui nenhum reparo. Mas trata-se de gente que estimo, que conheço através da escrita, gente que, para alem de outras qualidades ou defeitos, tem intuição, age em consciência, mostra-se perspicaz mas tolerante, é solidária, gosta de exprimir a sua opinião -- que é única, diferente, conforme a unidade de cada ser -- não podendo coincidir com a de outrem...”

Donde depreendo que, segundo o Evaristo, gentes da “ala esquerda” (?!), estimáveis ainda para mais, não deviam falar sobre Cuba, como se o assunto fizesse parte de património sacro-político comum. A preservar, pois claro. Ou a mumificar, talvez.

E, depois, Evaristo explica, bem explicadinho, o conteúdo do tal património cubano que devia unir (e calar) a “ala esquerda” (?!):

“Cuba resiste ao gigante... por uma questão de honra e orgulho. Há sempre quem proteste, quem pense em si mesmo, só em si, e esqueça os demais... Democracia só com liberdade para falar, não serve; o povo sempre falou, da vida, das colheitas, da casa, da familia... Mas há sempre alguem que quer mais, que olha para o "gigante" estrangulador. Cuba é pobre, mas tem honra. Merece mais, mas o "gigante" não deixa; quer a porta aberta para o McDonalds, a Coca-Cola, etc.
O povo cubano há-de ser livre, livre do bloqueio imposto pelo "gigante", há-de chegar esse dia. O que está a ser feito é cruel, atiça o nacionalismo, cria dificuldades económicas, dá aso a que, perante o desafio do "gigante", o poder endureça e não tenha tempo nem meios para atender as pretensões justas de alguns, mas irrelevantes perante os interesses da Nação.”


E a isto, eu digo que com este pensamento de esquerda nunca me irei entender. Estou algures, noutra barricada. Contra a justificação maniqueísta da ditadura cubana pelo estúpido bloqueio norte-americano (como se Zapatero não estivesse, como está, a também tratar dos interesses económicos espanhóis na Ilha). Contra o desprezo manifestado contra homens e mulheres de pensamento livre, aprisionados por causa disso, tão cubanos como Fidel, ao deles se dizer “há sempre quem pense em si mesmo, só em si, e esqueça os demais”. Contra os que acham que a liberdade ali não tenha cabimento porque a ditadura cubana “não tem tempo nem meios para atender as pretensões justas de alguns, mas irrelevantes perante os interesses da Nação”. Porque ouvi vezes de mais este discurso justificativo de uma ditadura, de outra ditadura.

Afinal, infelizmente, a questão da liberdade ainda continuará a ser o tema mais oportuno para “discutir à esquerda”. Talvez porque não pode ser, continuar a ser, assunto que separe “esquerda” da “direita”, oferecendo a esta a causa da liberdade. Talvez, finalmente, apenas para confirmar que não estou isolado quando penso, como penso, que não existem “ditaduras de esquerda” mas, apenas, ditaduras, merecendo sempre o (mesmo) combate de quem defende a democracia.

E quanto à discussão brava, pode o Evaristo descansar, brava estará a ser a conversa mas julgo que ninguém se zangou.
publicado por João Tunes às 12:57
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2 comentários:
De Joo a 10 de Dezembro de 2004 às 01:10
Não tenha problemas, caro Evaristo. Percebi a sua intenção e eu aproveitei para reafirmar a minha posição. Já li o seu novo post. Não estou nada de acordo, mas isso são diferenças de pontos de vistas. Mas descanse que não lhe vou á liça porque o tema, para já, cansou-me. Voltarei mais tarde, quem sabe se para celebramos a democracia em Cuba. Abraço.


De Evaristo a 9 de Dezembro de 2004 às 13:42
Caro João Tunes,
Ainda bem que ninguem se zangou. Eu achei que a discussão podia ia até à zanga. Só por isso a ela me referi, sem ter a ideia de nela vir a participar. Referi-me em termos ligeiros e pouco pensados, mas não quero fazer disto uma polémica. É possivel que me refira refira a este
caso no Abrangente, como forma de atenção a quem nos lê, mas nunca para polemizar consigo - ou a Lolita - pois têm uma bagagem intelectual que eu não tenho; nem idade para tanto, pois já vou com 65 anos. Escrevo para alguns amigos, pelo gozo que me dá, e por que sempre escrevi em
jornais e ajudei a fundar um: o Jornal da Costa do Sol. Agora vivo a vida sem compromissos, gozando o tempo livre que tenho.
Respeito as opiniões do João, e compartilho muitas das suas ideias. O João escreve de forma soberba o fio condutor do seu raciocínio, eu já não tenho a veia impulsiva e o verbo de tribuno que tinha noutros tempos. Se o João continuar a ler os meus escritos, peço-lhe que tome tudo isto em consideração.
Um abraço, e obrigado pelo horário da Sulitânia.


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