Quinta-feira, 14 de Outubro de 2004

RÉPLICA

margarida.JPG

A minha querida amiga Guidinha, meteu post evocativo do mítico Che. E eu, invocando a Novíssima Lei do Contraditório, provoquei-a e reproduzi um post antigo sobre o Cristo Guerrilheiro.

Como esperava, a Margarida não se ficou e mandou-me com esta:

“Com os pés assentes na terra, ainda gosto de ter como referência o essencial do guerrilheiro que foi o Che. Quanto aos aspectos negativos da sua personalidade, realmente tão pouco condizentes com o que se mitificou, quantos de nós, revolucionários-de-cravo-ao-peito, e noutra conta, peso e medida, não cometeram também excessos e injustiças? E sem acto de contrição nem mea-culpa, nem tampouco o reconhecimento dos efeitos negativos de tais e tantos 'feitos valerosos', atendendo a que ainda 'mexem'…”

A isto lhe respondo que não me eximo ao julgamento dos meus actos, muito menos dos que passei como revolucionário. Por isso, aqui vai:

1) Cada um responde por si. Não assumo culpas de outros nem disfarço as minhas, diluindo-as nas de alguém mais.

2) Fui revolucionário por convicção. Antes e depois de 1974. Fui modesto nos contributos. Nunca passei de revolucionário de base, porque não tive mérito para mais e porque me recusei a pagar preços de promoção e de carreira. Resultado: dei o que consegui dar, não sujei as mãos, orgulho-me do preço que paguei pelas minhas convicções. A revolução foi bom na minha formação e na minha vida, conheci o melhor e pior, enganei-me talvez tanto como acertei, fui um camarada de vontades livres. Melhor que eu, responderão os trabalhadores com quem emparceirei nas lutas pelas suas ambições e os outros que hoje estão no poleiro, que me enfrentaram até ganharem, derrotando-me.

3) O acto mais revolucionário e supremo da minha vida (a lucidez é sempre revolucionária mesmo quando vem tarde) foi perceber o engano e hoje dar graças que o projecto que abracei fosse derrotado. Porque sei bem que voltaria a Caxias se a revolução triunfasse. E se da primeira vez, foi uma passagem (uma noitada apenas), os novos carcereiros seriam bem mais implacáveis. E sobre isso não tenho meias tintas nem faço pontes para justificar passados ou equívocos.

4) Che terá sido um revolucionário. Mas foi também um criminoso. Em nome das suas vítimas, eu, por decência, não vou dar-lhe nem o benefício do mito nem pedir-lhe capa para proteger os meus sonhos passados para viver bem com o meu futuro.

Fui claro? Um abraço, querida Margarida.
publicado por João Tunes às 19:23
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