Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2005

ÉDIPO AO PODER?

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O normal seria que um líder apelasse através da imagem induzida do fazer, construir, resolver. Porque é isso que esperam os que dependem de quem pode. Ou seja, todos os que não são poder, além do singelo poder do depósito de um voto.

Agora apelar ao voto de piedade para com a vítima, lembra a quem?

Passa a mensagem de transformar a responsabilidade do nosso estar e do nosso destino em compensação de um carente, homem que procura colo, um infeliz que precisa de ser primeiro-ministro senão atira-se da ponte abaixo e vai desta para melhor?

Apelos erotizados a maternidades disponíveis? Estaremos mesmo no terreno da política ou apenas a tratar um caso de materfilia?







publicado por João Tunes às 17:23
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JÁ SUJA QUEM QUER

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Uma parte da campanha está a ficar inquinada com vilanias tais que, julgo, é a transposição da incapacidade governativa para a incapacidade política. A incompetência dos medíocres não tem baias. O PSL degradou o conceito de causa pública e traz o lixo para o debate político. A isto chama-se nivelar por baixo até que o País, parafraseando o bom do Chico, se transforme num imenso Pantanal. E a lama já é tanta que se atira lama e depois mostra-se a mão limpa à pressa no lavatório para tentar contabilizar efeito de donzela ofendida.

Infelizmente, mea culpa em nome da minha molécula que entra nesta larga esquerda, o mote foi dado pela esquerda baixa. Louçã, o homem das frases definitivas como anátemas, o redentor dos desiludidos em trânsito, foi o que primeiro usou a vilania naquele que podia ser o combate político que mais facilmente podia ganhar. E, com isso, inquinou a esquerda perante a direita mais direita. Mas o enorme poder de atracção pela irreverência bloquista funciona. Se eles são os criativos, os sem papas na língua, os inconformistas radicais e os protectores dos higiénicos e dos sem abrigo, quem lhes quer ficar atrás? Porque muito do marketing, o político como o outro, é um processo de imitação (até que se abra um novo ciclo criativo nos apelos). E qualquer produto gera sub-produtos.

Haverá retorno? Logo à noite, serei um de tantos que vão querer ver. Uma coisa é certa: em branco, é que eu não fico.





publicado por João Tunes às 16:43
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DESTINO SANTANETE

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Segundo o Jorge Neto
.
publicado por João Tunes às 15:16
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A SOLIDÃO DO BRANCO

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Um voto em branco vale o que vale qualquer voto expresso. No caso, uma vontade de não vontade. Ou: escolham vocês mas comigo não contam.

(Diferente da abstenção ou do voto nulo voluntário, ambos modos de resistências fatelas – da preguiça ou do arroto. Democraticamente falando, é claro, estar assim em democracia e fora da democracia é como habitar casa sem pagar renda.)

Também pode acontecer que o voto em branco não seja mais que uma manifestação de inferioridade aristocrática, uma maneira de se achar menos imbecil por imbecis considerar os que escolhem quando não há perfeição para escolher. E, no caso Saramago, embora ele não tenha passado do simbólico, se não foi (é?) o caso, por perto andará. Para além do golpe de marketing para vender livros.

Assim, considero que, em dignidade, o voto branco não desmerece do voto expresso. Porque nos caminhos dos votos expressos, em muitos deles, também se fazem atalhos bem artilhados de considerações que estão muito ao lado de uma escolha. E se, para tantos, é tão complicado escolher, com cálculos complicadíssimos em alguns casos, não escolher não destoa assim tanto. E eu que voto em desconsolo, tenho de entender quem dos desconsolos se quer livrar e, de exclusão em exclusão, chega ao empate total, só lhe sobrando o frio do branco.

Mas o movimento organizado e anónimo pelo voto em branco que anda aí, é que me parece coisa de lixo. Não só por ser anónimo (o que, se calhar, já lhe chegava). Mas por pretender organizar, manipular, não vontades. O que, em si, é uma negação de si. Que só pode ter mãozinha de quem organiza matilha para ferrar o dente. Numa sociedade de escolhas e de não escolhas. Bandalheira paranóica a destes solitários extremos que em vez de meterem, solitariamente, a corda ao pescoço, não querem morrer sozinhos.









publicado por João Tunes às 13:07
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Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2005

DESPORTIVISMO SOFRIDO

chamadrago[1].jpg

De santo nada tenho, nem para lá caminho. Para mais, tenho péssimo feitio porque é fácil que os humores me trepem pela serenidade acima. E gosto de andar à pêra. Sempre gostei, vem-me de pequenino. Acho que uma pêra bem dada (com maneiras e fair play para dar e levar) vale mais que uma razão engordada pela presunção da sentença ou do disparate. E não quero passar pelo mundo com gostares de ponto de caramelo enfiados em pantufas de convenientes pelos sociais. Daqui pensar que a última coisa que me recomenda é servir de exemplo para quem quer que seja. Os meus votos é deixarem-me embevecer com tantos e tamanhos biliões bem melhores que este cidadão. Assim, um ou outro desatino nem se nota. Ou, então, nota-se muito mas, como sou um pacífico cheio de caruncho, dará aos outros para passarem à frente ou de largo.

E se exemplar achava eu que era coisa que nunca constaria do meu currículo, a última de tal remota hipótese seria sê-lo no domínio da crença clubística, em que partilho desmandos com muitos outros e que, por me pesarem os seus excessos na consciência, costumo abrandar-lhe as labaredas de inferno merecido, desculpando-me que isto é coisa de religião.

Ora o estimado amigo Werewolf
não esteve com meias medidas e, às voltas com descrenças e más fidelidades lá pelo seu campo, onde as coisas já correram melhor, resolveu oferecer-me aos seus consócios e apaniguados como exemplo a seguir por ter enfarpelado a fronha com paramento benfiquista aqui no cimo do Água Lisa apesar das banhadas que tenho enfiado neste campeonato. Como se um rival fosse exemplo de motivação para uma tribo adversa… E fico a imaginar o que ele vai ter de aturar aos seus. Rio-me é claro, só podendo acompanhar com um “bem feito”.

No que dá a amizade. Em exageros, pois claro. Sobretudo de quem me considera amigo da blogosfera que até é benfiquista (o que é notável pela nota da excepcionalidade benevolente)!

Que posso fazer? Retribuir o abraço mandado com todo o empenho sincero e dar-lhe, pela imagem do mafarrico que habita o coração deste amigo, uma nota de desportivismo que me rói as entranhas e que me custa mais que arrancar um dente. Mas, se somos exemplo em alguma coisa, já se sabe que o caminho que se segue é o do sofrimento. Sofra-se então.








publicado por João Tunes às 18:22
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AINDA SOBRE AS ELEIÇÕES NO IRAQUE

22-flagi-sadurski[1].jpg

Dois estimados vizinhos e visitantes, deixaram os seus comentários ao meu post sobre as eleições no Iraque. Ambos manifestaram posições bem diversas das minhas. E com sólidos esboços de argumentos. O que, pelo menos, é saudável como manifestação de diferença de vistas.

Como normalmente a chinela da polémica me puxa pelo pé, ainda comecei a esboçar uma resposta aos dois amigos blogo-condóminos. Mas depois, pelo respeito com dor que me merecem os povos iraquianos, martirizados por uma das ditaduras mais sanguinárias que passaram pela face da terra, pela guerra e pela invasão, pelos interesses mais ou menos disfarçados, pelo terrorismo e pelo fundamentalismo, também pela forma como a sua infelicidade é usada como bandeira de outras águas para outros moinhos, resolvi adiar a resposta para quando me sinta mais liberto da inibição em voltar a falar, já, de alegrias e tristezas com um preço tão elevado. No caso, para mais, tratando-se de um País que conheci, que me fascinou e tão bem me tratou alguma da sua gente. Pelos iraquianos, eu não posso (quem pode?) rebobinar a história. Tirar-lhes o colonialismo inglês, Sadam, a brutalidade bélica americana, as mentiras a servirem de pretexto, as bombas que lhes rebentaram as casas e os corpos, o fanatismo que turva as soluções, os nós difíceis de desatar daquele mosaico étnico-religioso desenhado a régua e esquadro coloniais. Sabendo como sabemos que só num curtíssimo período, ali a soberania se exerceu através do voto livremente expresso. E amarro-me à crença de que só pelo voto, a democracia soberana pode devolver a vontade legítima de futuro àqueles povos. Sei que é curto como argumento contra a miríade de opiniões consolidadas, sobretudo em quase todas as margens esquerdas. É, sim senhor. Mas quero, agora, parar aqui, com uma confiança muito pouco confiante. Deixem-me, agora, olhar para o Iraque com alguma esperança. Os argumentos seguirão mais tarde.

No entanto, pelo devido respeito ao exercício do contraditório, transcrevo os dois comentários, agradecendo-lhes a atenção:

“É suposto que as eleições sirvam para alguma coisa. É pensável que aqui na Europa se realizassem eleições com o quadro existente no Iraque? Penso que estará de acordo comigo, que seria impensável... Partindo do princípio que as eleições foram um acontecimento positivo (de que discordo), que possibilidade existe de real efectivação do poder? Não seria melhor criar essas condições como pressuposto para a sua realização??”
(mfc
)

“João Tunes, subscreveria o teu último parágrafo, de tão bem escrito e sentido que está, mas quanto aos dois parágrafos anteriores tenho duas objecções: 1) não me parece que os iraquianos que participaram nesta plebiscitação cega de um regime vigiado e controlado pelos ocupantes, tenham podido «escolher»; 2) não percebo de que «opções para o futuro do país» estás a falar e atrevo-me a supor que alguns (muitos?) iraquianos também não. Será possível chamar democrático a um processo em que não há informação livre nem possibilidade de debate? Estou a tentar recolher mais informação sobre esta parte do processo iraquiano mas, o que já é público leva-me a crer em mais um erro crasso. Evoca-me aquela cena do filme de Buñuel em que os camponeses antes de serem fuzilados pelas tropas napoleónicas, gritavam «Á bas la liberté». Poder-se-á conceber a democracia sem liberdade?”
(Manuel Correia
)









publicado por João Tunes às 17:11
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MOÇAMBIQUE VIA BRASIL

ZP.jpg

O meu muito obrigado ao Zé Paulo
que, no seu excelente blogue, nos distinguiu com uma referência bem simpática.

Com aquilo de que se gosta, não se é condescendente nem se assobia para o lado. Trata-se com a mão crua da verdade da amizade exigente. O Zé Paulo, do Brasil e com a sua excelente escrita completamente brasileira, não perde atenção interessada e crítica para com o seu Moçambique. Quanto a mim, a melhor forma de mostrar afecto vivo por aquilo que se gosta com gosto de gostar mesmo. Com amor de paixão que não se deixa contaminar pela facção. Pode parecer estranho, mas (não só, mas também) navegando até ao Zé Paulo no Brasil, vou dando corda ao meu gosto pelo País em que, hoje, o soba Chissano cede o lugar ao soba Guebuza, com o povo moçambicano sempre como fundo, ainda não como sujeito. Lá chegará, vou pensando, enquanto não desisto de acreditar que ele merece diferente e bem melhor que essa tripla desgraça – colonialismo, frelimismo e renamismo.


publicado por João Tunes às 16:11
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MODERNO CINEMA ALEMÃO

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Começa hoje, no Goethe-Institut em Lisboa, o 2º Festival de Cinema Alemão que se desenrola até ao dia 9 deste mês, com as restantes exibições (longas e curtas metragens) a terem lugar diariamente, a partir de amanhã, com três ou quatro projecções, no Cinema King. A iniciativa é uma organização conjunta do Goethe-Institut, da Medeia Filmes e do ABC Cine Clube de Lisboa.

Neste festival, serão projectadas obras realizadas no período 1999/2004, permitindo contactar com a mais moderna geração de cineastas germânicos. Um desafio, pois, aos cinéfilos que acreditam no cinema europeu.

Mais informações podem ser obtidas aqui.





publicado por João Tunes às 15:32
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CANTO E CASTRO

Canto e Castro.jpg

Muitas vezes acontece que a modéstia como forma de viver, diminui perante a fama e o proveito. Até pelo reconhecimento do real valor. Depende das actividades. Se se for um santo ou um escuteiro, claro que a modéstia faz parte do ofício. Quanto mais modesto, melhor. Mais notável será o santo, mais santo será o escuteiro. No meio das actividades artísticas, nomeadamente no teatro, ser-se modesto é um tremendo risco.

Canto e Castro foi um grande actor com uma desmesurada modéstia. Talvez por essa qualidade, ruim qualidade num actor, passe sem o devido sentimento de perda para o teatro português o desaparecimento deste grande artista.

Fica aqui a nota da minha profunda mágoa de saber que Canto e Castro partiu.





publicado por João Tunes às 00:16
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Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2005

IRAQUE

Imagens antigas 060.jpg

As eleições do Iraque terão espalhado desilusões a esmo. Paciência. O anti-americanismo que meta uns cartuchos no bolso a aguardar melhores dias. Fizeram-se e foram, antes de tudo e apesar de tudo, nas condições excepcionais em que se processaram, uma afirmação democrática de um povo desabituado de escolher. Em muitas décadas, ou estava tudo decidido por todos ou caíram-lhe bombas em cima. Antes a decisão pelo voto. Que torna o Iraque num país a merecer que se trate imediatamente das condições para a sua desocupação. Soberanamente, sem ditadura e sem invasores. Não de sopetão mas segundo um plano que deve ser supervisionado pelas Nações Unidas.

Naturalmente, no mosaico étnico-religioso iraquiano, a paz não vai estar ao virar da esquina eleitoral. Os ressentimentos entranhados não secam com facilidade. Mas, a longa supremacia sunita, imposta pelo poder de Sadam, tem os dias contados. A maioria xiita e os curdos, contabilizaram-se agora. No fundo, uma recomposição entre maiorias e minorias. E as minorias, devendo conservar os seus direitos como minorias, terão de atender a que o direito de governo compete a quem é maioria. Com regras de convívio, é claro. Ou seja, o contrário do que Sadam fez para com a maioria curdo-xiita. Não vai ser fácil, mas é possível. Pelo menos, existe uma base de vontade eleitoral expressa para legitimar opções de futuro para o país. E eu não posso deixar de me curvar com imenso e sincero respeito perante o longo calvário que o povo iraquiano percorreu para se chegar à boca das urnas.

Sempre tive dúvidas sobre a factibilidade do Iraque como país e que não foi mais que uma construção geométrica do velho império britânico. Ou os três painéis de identidade constroem uma identidade nacional que lhes permita o convívio, ou então melhor será que pacificamente se separem. A verdade é que, em tantos anos de existência, a qualidade de iraquiano sempre foi mais uma forma de dizer que outra coisa. Imposta primeiro pelos britânicos e depois conservada anos a fio pelo clã do Partido Baas. Em que as identidades sunita, xiita e curda em vez de amalgamadas foram reprimidas por força do domínio de uma minoria (e que recebeu essa capacidade de domínio do facto de ter sido sunita a guarda pretoriana e castrense que serviu o aparelho militar otomano). Decidam politicamente, são os meus votos. Substituindo, sempre que possível, o falar das armas pela voz da vontade expressa.





publicado por João Tunes às 16:06
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