Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2005

SOBRE PRESSAS CONDENATÓRIAS

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Não considero nem razoável nem justa a forma como O Jumento desanca no Bloco de Esquerda. Idem para a pancada nos renovadores (da RC) que se acolheram à sombra de Louçã.

Vejamos dois exemplos da oratória jumentina:

Este:
“eu gostaria de saber a opinião dos renovadores que se mudaram para as listas da coligação estalinista/trotskista.”
Mais este:
“Por ver os renovadores do PCP que integram as listas do Bloco de esquerda ao lado do major Tomé ou de algum descendente do PCP(R) a defender a conquista do poder pelo proletariado; justificar a sua participação nas listas do PS [nota minha: julgo que se quis dizer BE] por "consideraram hoje que a sua participação pode ser importante para aumentar os votos e deputados daquele partido e para "derrotar a direita" é, no mínimo, hipocrisia. Hipocrisia porque ao quererem aparecer ao lado de Louçã apenas denunciam um enorme desejo de protagonismo que não levará o mais hesitante eleitor do PCP a mudar a intenção de voto. E o mais curioso é serem estes "renovadores" a desenterrar o argumento da "maioria de esquerda" que durante tanto tempo foi a máxima preferida de Álvaro Cunhal.
Sou incapaz de não dar razão a Jerónimo de Sousa quando acusa o BE de se transformar em "depósito geral de adidos, recolhendo velhas insatisfações, zangados com a vida e frustrados com a situação.”


O que me suscita os seguintes comentários:

Datar e cristalizar o Bloco na sua génese, na fase em que resultou da fusão de três forças políticas – PSR (trotskistas) + UDP/PCP(R) (estalinistas-maoistas- albaneses) + Política XXI (ex-comunistas) -, e a esta distância, é, no mínimo, uma fixação na culpabilização por via do pecado original. Como se, entretanto, o mundo político tivesse ficado estático, a dinâmica do Bloco não tivesse operado um efeito de diluição e de absorção das organizações de fundação, o Bloco não tivesse crescido e absorvido novas camadas que lhe vão dando e impondo uma praxis que tende a afastar-se da dos fundadores. E, obviamente, mantivesse-se o Bloco estagnado na matriz estalinista/trotskista, como entender o seu poder de atracção com um potencial reconhecido unanimemente como não esgotado? Passa pela cabeça de alguém que os génios de Louçã, do Major Tomé e do rachado Portas sejam tamanhos que tenham as capacidades necessárias para moldar o poder de ocultação propagandística do Bloco a ponto de tornar atraente (sobretudo para a juventude urbana, letrada na sua maioria) produtos políticos velhos e típicos da Feira da Ladra? Por aqui, só posso pensar que insistir em chamar de coligação estalinista/trotskista ao Bloco de hoje e atribuir-lhe o projecto de “conquista do poder pelo proletariado” é não querer ver ou não querer saber. E, em temos de debate político, é substituir a análise e o argumento pela etiqueta diminutiva.

Quanto aos renovadores que levaram pela medida grossa do O Jumento, seguindo as repulsas de Jerónimo, direi que as deste percebem-se e bem, porque ainda está fresca a refrega interna e as palmatoadas nas “folhas secas” têm a missão de unificar os que vão sobrando. Mas choca o sofisma de O Jumento que parte deste dado: como o Bloco é estalinista e trotskista, não faz sentido esta regressão agravada por parte de quem saiu do berço do estalinismo do PCP. E ainda mais preconceituoso é chamar-se de hipócrita à defesa da “maioria de esquerda”, porque esta fórmula foi usada por Cunhal, como se ela não fosse objectivo comum a qualquer força ou indivíduo que se situe à esquerda. Uns pela maioria absoluta no PS, outros preferindo o controlo do PS à sua esquerda, através de uma maioria só relativa. Pior que tudo, O Jumento parece negar aos que saem do PCP o direito em se reenquadrarem e procurarem espaços para respirarem ou mesmo novos portos de abrigo, como se sofressem de qualquer sarna a merecer a penitência da quarentena política. O natural é que, dos que saem (e vão continuar a sair) do PCP, uns fiquem “pendurados”, mas outros vão para o PS ou para o Bloco, por militância ou pelo voto, em constância ou com intermitências.

Coloco estas notas de discordância com absoluto à vontade. Primeiro, pela estima que tenho pelo blogue O Jumento (tanta que, para com ele, só posso ser exigente). Segundo, porque sabe-se bem que não bebo nas águas políticas do Bloco. Terceiro, porque fui dos primeiros a exprimir a minha opção de voto (que, no entanto, é dinâmica e atenta até ao momento de me chegar à urna). De qualquer forma, entendo que a luta ou discussão política deve ser feita num quadro razoável de argumentos fundamentados. O que, manifestamente, não me pareceu ter sido, sobre o tema tratado, o caso do blogue da minha preferência.
publicado por João Tunes às 00:35
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De RN a 24 de Janeiro de 2005 às 00:50
Já começaste a escrever as tuas memórias? Se não escreveres a história só registará as outras versões. Um abraço


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